Sei que há uma história pra contar

"Meus sonhos estão se tornando realidade. Sonhos que eu nem sabia que eu tinha. Mas o meu irmão não está aqui. Ele está perdendo tudo".

Faz algumas semanas que estou ensaiando um texto. Tudo começou quando uma colega de trabalho recebeu por telefone a notícia de que seu pai havia falecido.

Eu convivia há quase seis meses com ela, mas nem por isso era sua amiga. Nos tratávamos bem, trocando algumas palavras durante o longo almoço de 15 minutos que uma vez ou outra fazíamos uma ao lado da outra. Nada demais. Nenhuma grande afinidade.

Foi só quando a vi repetir sem parar, "o que vamos fazer agora?" que senti que tínhamos algo em comum. Foi como viver tudo de novo. A vida indo embora. O choque. O mundo que parou de fazer sentido. Naquele dia eu perdi meu pai mais uma vez.

O tempo passou e o texto foi esquecido...

No ano passado um irmão do meu pai faleceu. Uma das filhas dele, a minha prima, ficou o tempo todo dizendo que eu era a unica que sabia pelo o que ela estava passando. O facebook do meu tio continua ativo, um monte de desavisados deram parabéns pra ele no seu aniversário e vira e mexe algum parente posta mensagem de saudades lá.

Ontem brotou na minha timeline um post da minha prima no qual meu tio havia comentado. Até eu assimilar que era algo antigo, quase tive um treco achando que a internet chegou ao céu. Depois que a ficha caiu, ficou em mim um sentimento vergonhoso de quem queria uma declaração como essa pra guardar pra sempre: " ser pai não é fácil, foi você que começou a me ensinar...a gente tem que aprender a ser pai enquanto continua aprendendo a ser gente. Além do orgulho de ser teu pai, agradeço o privilégio de poder conviver com você. Obrigado!!!"

Essa história do meu tio me lembrou a história da menina do trabalho e eu fiquei com isso na cabeça. A gota d'água foi assistir Grey's Anatomy.

A citação do começo do texto foi retirada de um episódio que gira basicamente em torno de um casamento.

Eu nunca fui aquela menininha que ficava sonhando acordada com o dia do casamento. Nunca fantasiei sobre vestido, decoração, presentes e preocupações. Até um tempo atrás eu acreditava que a minha alma gêmea tinha nascido morta, então não tinha porque pensar em algo que parecia impossível de acontecer. 

Meu pai morreu. Eu encontrei o amor. Passei então a sofrer com cada cena de filme, livro ou seriado que envolvesse véu e grinalda. Eu que nunca pensei em subir em um altar, comecei a chorar com a ideia de uma caminhada solitária sem ninguém para entregar a minha mão ao noivo, na tristeza de não ter a clássica dança entre pai e filha.

Daí lamento o dia que escolhi ir a Disney ao invés de jogar dinheiro fora numa festa que alguém sairia reclamando, mas pelo menos eu teria dançado a valsa com o meu pai. E me lembro de algum dos muitos aniversários de 15 anos que fui, quando meio sem jeito ele me tirou pra dançar e disse que era bom a gente começar a treinar.

E eu choro por um sonho que eu nunca soube que era meu porque é do tipo que precisa de dois para ser sonhado. Eu imagino o noivo chorando, pensando que nunca viu nada tão lindo na vida, e a noiva chorando por aquele ser o dia mais feliz da vida dela e por duas pessoas estarem perdendo tudo aquilo.

Não era pra ser assim.