Sentimental

Eu falei sobre você outro dia. Passei perto da sua rua e a saudade me bateu com tanta força que quase caí da moto. A única coisa que me manteve grudada no banco foi o orgulho.

Fiquei pensando no cheiro de panetone que o seu apartamento tem no Natal, do seu quarto tão cheio de livros quanto o meu e no sofá mais confortável que eu sentei em toda a minha vida. Não pude deixar de lembrar das longas conversas que misturavam as histórias dos outros com as nossas. Eram livros, seriados, músicas e a gente. Falando sobre a vida que muitas vezes pareceu ficção de tão absurda que soava.

Depois eu pensei que agora eu não faço mais parte dos seus dias, não sei mais nada sobre as reviravoltas do seu enredo e tenho a ligeira impressão de que você me detesta. Doeu, mas logo em seguida eu me reconfortei achando que no dia seguinte essa nostalgia toda estaria enterrada no passado.

Te ver hoje foi surreal. Era um rosto conhecido habitado por um estranha. Alguém que me olhou como uma desconhecida e não pensou duas vezes antes de virar a cara. Tava ali a prova de que a vida segue, mas pra isso é necessário abandonar aquilo que não tem mais utilidade, na esperança de diminuir o peso da bagagem. Tipo eu.

Eu respirei fundo pra manter o reflexo da sua indiferença no meu rosto. Com sorte, em pouco tempo esqueço de tudo isso e volto a fingir que nunca fizemos parte uma da vida da outra. Contudo, hoje voltou a doer. Não consegui me lembrar quando foi que a gente chegou a conclusão de que a nossa amizade não era grande coisa. Só pensei em bobagens que não justificavam esse abismo entre nós.

Quando a saudade me bateu lá atrás, eu pensei em te procurar. Imaginei uma reaproximação lenta. Que talvez a gente nunca voltasse a ser como antes. Acima de tudo pensei que, se o orgulho deixasse, voltar a ser sua amiga seria bom demais. Quase um prêmio.

Mas a vida segue e hoje, depois de me acabar de chorar, eu voltei a ver com claridade. Já ganhei na loteria enquanto você não estava por perto.

Sei que há uma história pra contar

"Meus sonhos estão se tornando realidade. Sonhos que eu nem sabia que eu tinha. Mas o meu irmão não está aqui. Ele está perdendo tudo".

Faz algumas semanas que estou ensaiando um texto. Tudo começou quando uma colega de trabalho recebeu por telefone a notícia de que seu pai havia falecido.

Eu convivia há quase seis meses com ela, mas nem por isso era sua amiga. Nos tratávamos bem, trocando algumas palavras durante o longo almoço de 15 minutos que uma vez ou outra fazíamos uma ao lado da outra. Nada demais. Nenhuma grande afinidade.

Foi só quando a vi repetir sem parar, "o que vamos fazer agora?" que senti que tínhamos algo em comum. Foi como viver tudo de novo. A vida indo embora. O choque. O mundo que parou de fazer sentido. Naquele dia eu perdi meu pai mais uma vez.

O tempo passou e o texto foi esquecido...

No ano passado um irmão do meu pai faleceu. Uma das filhas dele, a minha prima, ficou o tempo todo dizendo que eu era a unica que sabia pelo o que ela estava passando. O facebook do meu tio continua ativo, um monte de desavisados deram parabéns pra ele no seu aniversário e vira e mexe algum parente posta mensagem de saudades lá.

Ontem brotou na minha timeline um post da minha prima no qual meu tio havia comentado. Até eu assimilar que era algo antigo, quase tive um treco achando que a internet chegou ao céu. Depois que a ficha caiu, ficou em mim um sentimento vergonhoso de quem queria uma declaração como essa pra guardar pra sempre: " ser pai não é fácil, foi você que começou a me ensinar...a gente tem que aprender a ser pai enquanto continua aprendendo a ser gente. Além do orgulho de ser teu pai, agradeço o privilégio de poder conviver com você. Obrigado!!!"

Essa história do meu tio me lembrou a história da menina do trabalho e eu fiquei com isso na cabeça. A gota d'água foi assistir Grey's Anatomy.

A citação do começo do texto foi retirada de um episódio que gira basicamente em torno de um casamento.

Eu nunca fui aquela menininha que ficava sonhando acordada com o dia do casamento. Nunca fantasiei sobre vestido, decoração, presentes e preocupações. Até um tempo atrás eu acreditava que a minha alma gêmea tinha nascido morta, então não tinha porque pensar em algo que parecia impossível de acontecer. 

Meu pai morreu. Eu encontrei o amor. Passei então a sofrer com cada cena de filme, livro ou seriado que envolvesse véu e grinalda. Eu que nunca pensei em subir em um altar, comecei a chorar com a ideia de uma caminhada solitária sem ninguém para entregar a minha mão ao noivo, na tristeza de não ter a clássica dança entre pai e filha.

Daí lamento o dia que escolhi ir a Disney ao invés de jogar dinheiro fora numa festa que alguém sairia reclamando, mas pelo menos eu teria dançado a valsa com o meu pai. E me lembro de algum dos muitos aniversários de 15 anos que fui, quando meio sem jeito ele me tirou pra dançar e disse que era bom a gente começar a treinar.

E eu choro por um sonho que eu nunca soube que era meu porque é do tipo que precisa de dois para ser sonhado. Eu imagino o noivo chorando, pensando que nunca viu nada tão lindo na vida, e a noiva chorando por aquele ser o dia mais feliz da vida dela e por duas pessoas estarem perdendo tudo aquilo.

Não era pra ser assim.

Pelos velhos tempos

Tudo bem.
Tradição é tradição.

Se eu cresci mimada e mal acostumada, tenho certeza de que fiz o mesmo com você. Fui eu que inventei essa história de escrever uma carta virtual para alguém que era alérgica a tecnologia em vida, imagina só em morte. E como inventora de tal coisa, devo dar sequência a tradição. Não é como se eu tivesse alguma resposta ou sinal, mas já faz alguns dias que me sinto em divida com você.

Feliz aniversário, pequena.

Ainda ontem me perguntaram sobre ti. Em resposta a minha resposta, só souberam dizer o quanto você era uma senhora gente boa - como se precisassem me lembrar disso.

Tem uma coisa que parece boba quando dita em voz alta, mas que já passou pela minha cabeça algumas vezes. Eu não sinto mais saudade do pai do que de você ou vice versa. Só queria deixar isso bem claro porque essa ideia é algo que realmente me preocupa. Desculpa se em algum momento pareceu que eu esqueci da senhora. Tenho a sensação de você merece ainda mais. Mais choros, mais textos, mais saudade, mais longas conversas a seu respeito. Mais vida.

E mesmo depois de tanto tempo, posso te garantir que você sempre vem em minha mente quando eu dou uma gargalhada de verdade, daquelas que vêm do meio da barriga, ou um sorriso verdadeiro. É a tua falta que me tira o ar e traz seriedade ao meu rosto durante uns segundos antes de eu me soltar de vez. É difícil sentir qualquer coisa completamente quando falta um pedaço da gente.

Não sei de onde tirei essa mania de ficar me torturando, mas ainda me pego imaginando como tudo seria se tudo ainda fosse como era antigamente. A tua lembrança me oferece o aconchego do colo de vó e a confiança para continuar em frente que eu preciso vez ou outra.

Acho que eu perdi o foco da mensagem.
De qualquer forma, meus parabéns.
Te amo (desde que me lembro por gente e até o fim dos meus dias)

Eu também tenho tanto medo

Você sabe que eu te amo, não?
É sério, pode guardar a carteira.

O que eu quero?
Pra começar eu queria que o meu infinito não fosse tão maior que o seu e que o nosso conjunto limitado tivesse mais números do que tivemos e que ela voltasse a sorrir e ele começasse a falar e dinheiro não fosse problema e trabalhar fazendo aquilo que eu amo e o pequeno tivesse lembranças ao teu lado e se dependesse de mim essa lista não acabaria nunca mais.
Eu sempre quero o que não posso ter e acabo desprezando aquilo que já tenho, então hoje eu não quero te pedir nada. De perto ou de longe, sei que você já fez muito por mim. Talvez até mais do que eu suponho.

Muito obrigada e desculpa. Não consigo abandonar o hábito de te chamar quando as coisas ficam feias ou muito bonitas ou antes de dormir ou se eu preciso respirar.

Já te agradeci? Mesmo distante você não perdeu os seus super-poderes e até hoje não falhou, sempre veio ao meu resgate. 


Eu penso em você o tempo todo, mas essa semana a sua memória me assombrou mais do que o normal. Você perdoa a gente por seguir em frente?

Porque esse negócio de tocar a vida é algo assustador por si só, mas a ideia de deixar você para trás é pior do que assistir filme de terror baseado em fatos reais.

Você tava certo. Todo mundo deveria ter um lugar no mundo onde se sente seguro, eu sei. Isso significa que vender o teu cantinho foi como te enterrar mais uma vez. A sensação era de colocar um ponto final nos teus sonhos. Como se o fato de o sítio não ser mais nosso fosse o único empecilho te impedindo de envelhecer lá, não o detalhe de você estar morto. 

E o que você acha da mudança? Acredita que daremos conta?
Eu fico imaginando um lugar livre de lembranças, pelo menos pra mim. Sem entender direito se isso é bom ou ruim e tentando digerir a ideia de que tudo isso é muito mais bom do que ruim, ainda que não pareça (a frase ficou péssima mas você entendeu, no final você sempre me entendia).

Sei lá, eu só não queria dizer mais um adeus.Você sabe que eu te amo, não?
É sério, pode guardar a carteira. 

Manda um beijo pra Dona Valdice.
E mais uma vez, obrigada por tudo. Não chegaria tão longe sem vocês olhando por mim, por nós.