O sono que adia

Tudo bem. Eu te entendo. Esse desespero é normal. Ok. Você pode chorar durante 10 minutos e amaldiçoar os mortos e ficar de mal com Ele e se fazer de vítima. 

Passou? Não? 
Sem problemas. 

Respira fundo. Fecha os olhos. Tenta pensar em coisas felizes: livros novos, seriados, reencontros, longas conversas, ele. Talvez você precise de tempo para digerir as mudanças que estão por vir. Ou melhor, na verdade você precisa aceitar a ideia de que mais algumas mudanças serão necessárias e que isso não é obrigatoriamente ruim.

Pensa bem, mulher. Logo você que não suporta o drama alheio de quem prefere reclamar das injustiças do mundo ao invés de mexer o traseiro para colocar as coisas de volta no lugar, tem certeza que vai perder tempo chorando de medo de não dar conta de recado? 

Não acredito. Tantas possibilidades te sorrindo e você fazendo bico feito criança mimada. Quando foi que a vida te ofereceu o estrada de asfalto novo feito tapete ao invés daquelas de terra toda esburacada? Ainda consegue se lembrar? Acho que já faz algum tempo, não? Então porque a surpresa? 

Relaxa. Não se leva tão a sério. Dá um sorrisinho, seja ele sincero ou daqueles irônicos. Mostra para o roteirista da sua vida que você é mais forte do que ele supõe, mais destemida do que todos acreditam. Prova pra esse idiota que o medo é aquele colega chato que se considera um bom amigo, ele aparece nas horas mais inoportunas e nunca sabe quando ir embora. Só por isso ele ainda procura abrigo no teu peito.

Tá mais calminha? Você não sabe por onde começar? Não queria tanta responsabilidade? Odeia fazer escolhas pelos outros?

Moça, dorme. Deixa isso pra lá. Você tem um amanhã novinho em folha para decidir tudo isso. Até as caraminholas da sua cabeça precisam de uma boa noite de descanso. 

Que o seu eu do futuro seja mais sábio e decidido. 

Se tudo der errado? Vish, não será nem a primeira nem a última vez.
Com certeza a vida há de seguir.

So long.

Olha, eu não tenho mais idade para diluir minha personalidade com objetivo de ser aceita. Não posso esconder minhas vontades ou disfarçar meu vícios para que você me veja com bons olhos. 

Eu não era assim quando nos conhecemos, mas tampouco era você. Sabe como é, bem daquele jeito que é dito no filme, a vida aconteceu. O tempo te deixou mais careta enquanto eu decidi me deixar ser tirada pra dançar e beber e cantar e aproveitar.

Nós costumávamos ser parecidas, até que uma escolheu a pílula vermelha e a outra a azul. De repente eu desenvolvi o hábito de pensar sozinha e expressar esses tais pensamentos. Quanta ousadia da minha parte!

Em outros tempos eu perderia mais tempo tentando salvar algo que não merece o esforço de ser reparado. Não ache que estou apagando a nossa história. É só que apesar de sentir a sua falta, acredito que sentiria ainda mais saudade de mim.


Você me avisou que não sabia manter amigos. Como sempre, estava certa. 

Porque a gente é assim?

Quando eu descobri que gostar de livros e seriados não tornaria a minha vida amorosa mais fácil e era estranha demais para ser a mais desejada e que estar acima do peso não faria os caras caírem aos meus pés, decidi que seria engraçada. A gente gosta de quem nos faz rir. Talvez tenha sido aí que tudo começou, que dei início ao processo de me tornar do jeito que sou atualmente. 

Só que é difícil se achar esquisita e gorda e feia e disfarçar tudo isso apenas com piadas, então a gente se cerca de artifícios para mudar o foco de atenção. Foi assim que a ironia, o sarcasmo e o cinismo entraram na equação. Misture inseguranças e disfarces com sacadas rápidas e supostamente inteligentes que tcharam: você tem uma Arielle. 

Não adianta. Pode me chamar de gostosa, linda e mimimi (não que isso aconteça com frequência), nada disso muda a forma que eu me enxergo. Cada um vê no espelho apenas aquilo que deseja. Isso significa duas coisas, há quem seja desprovido de beleza e se enxergue como gêmea da Gisele Bündchen e existe também aqueles que não conseguem ver nada além um demônio no próprio reflexo. Talvez o difícil mesmo seja encontrar alguém que se considere um meio termo, nem tão perto do céu ou do inferno, ou se perceba com uma imagem próxima da realidade.

É por essas e outras que tenho dificuldade em acreditar em você, ainda que não duvide da sua sinceridade. Você me chama de linda quando estou com roupa de ficar em casa ou descabelada e toda suada ou sem maquiagem. Seus elogios me pegam de surpresa quando estou despida de qualquer camuflagem. De repente gosto de como eu me vejo pelos seus olhos - uma Arielle nova, toda sua. 

Isso também me dá medo, por mais que você me enxergue melhor do que qualquer outra pessoa, descobrindo detalhes sobre mim que eu mesma desconheço. Às vezes tenho a impressão de que sua percepção pode  ser distorcida e ligeiramente aumentada, que um dia você vai acordar e se decepcionar com a realidade. Nem tão inteligente, nem tão bonita. Muito longe de ser grande coisa...

E eu sei que não tem nada a ver com esse assunto, mas não entendo porque a gente insiste em dizer que gosta quando quer falar muito mais. Economizar palavras não mudam os nossos atos que nos entregam sem o mínimo de pudor. 

Só pode ser amor se a gente saudade quando fica apenas um dia sem se ver. Não pode ter outro nome aquilo que a gente sente se temos coragem de entregar o coração de bandeja e dizer "faz o que você quiser com ele". Deve ser isso mesmo se o futuro, apesar de incerto, começa a ser planejado a dois, nem que seja de brincadeira. 

E por mais que falar assim pareça mera formalidade, eu te amo.

(não é todo dia que encontramos alguém para ser amigo, família, amante e companheiro)

Até quando?

Pior do que acordar assustada no meio da noite, é despertar de um sonho horrível por causa de um choro sentido. Surpresa maior foi descobrir que a origem do som era ela mesma.

O dia da moça foi corrido, mas acabou bem. Nada que justificasse reviver aquela cena. Dessa vez, nenhum menino sobrevivente estava ao lado dela para oferecer consolo. Chorando garota acordou e foi assim que voltou a dormir, pensando nele.

Não era assim que a garota gostava de lembrar dele, sem vida.