A Fantástica Fábrica de Boas Memórias


Eu me lembro. Da terra vermelha, do pasto, dos cavalos, do céu estrelado, dos sorrisos sinceros, do sol se pondo, dos abraços apertados, do cansaço, de comer bem, da saudade, de me sentir em casa, de trabalhar o dia todo, da família, das festas, das provocações, da pipoca salgada, do grande rio, do jogo da vida, das corridas, das corujas... 

São quase 800km separando uma vida de lembranças. Foram tantas viagens, ainda que um número longe de suficiente para ser satisfatório, que acabaram todas iguais. A terra levantando enquanto as lágrimas caíam, pois é difícil seguir em frente quando se sabe que algo muito bom está ficando para trás. 

Pessoas morrem, celulares diminuem, novos seres humanos chegam ao mundo, uma mulher assume a presidência do país, mas na Fazenda Santa Martha as coisas continuam intocadas, simples e perfeitas. Não há mal no mundo que possa afetar aquele paraíso.

Eu continuo me lembrando...

Das aulas que perdi por causa das viagens; de arrancar risos das pessoas no carro quando disse que as nuvens eram de algodão; daquela vez que deitada no colo da minha mãe tentei enxergar formas num céu estrelado; teve também a jornada que começou no meu aniversário, o melhor de todos, e terminou no do meu irmão; o inverno mais frio da história da minha curta vida com direito a geada e tudo aconteceu lá; foi onde o meu pai me ensinou a dirigir, para em seguida minha avó mandar eu não olhar nos olhos do maior touro do mundo para ele não sentir o meu medo; teve também a primeira vez que eu tomei coca-cola com cerveja; e quando eu assisti novela tomando vinho quente e comendo pipoca; sem esquecer de quando apostaram corrida de cavalo comigo na garupa; foi naquele quintal que a gente mergulhou na lama; por causa de uma dessas viagens eu fiquei um tempão sem ver a minha avó...

Voltar para lá, depois de quase sete anos distante, foi a oportunidade perfeita para lembrar e reviver e sorrir sem medo. Pela primeira vez em anos, eu pude falar sem medo a respeito daqueles que eu apenas escrevo. Mais do que isso, tive a oportunidade de ver em outros rostos aquilo que sinto. De repente, todos enxergavam os lugares vazios na mesa.

Depois de tantos altos e baixos, a calmaria chegou. A terra era vermelha, o céu estrelado, os sorrisos sinceros, os abraços apertados e era tudo família. Finalmente o coração conseguiu descansar e estava cheio de amor.

Sonhos

Há mais de 830 dias a história desses dois não se cruzava. Parece muito tempo? Pois bem, caro leitor. Saiba que se você nunca sentiu na pele o tempo se arrastando sem a possibilidade de um reencontro, nunca conseguirá se aproximar do significado 830 dias sem alguém por perto, ainda que sempre presente, de maneira denifitiva. São mais de oito centenas de 24 horas de saudade acumulada que dão a impressão de terem durado mais do que 19 anos.

Não se engane, a distância física não os distanciou de fato. Ele abandonou a carcaça para morar no infinito tempo limitado dela. E a moça, por medo da alternativa, acreditava que ele a acompanhava como uma força invisível e constante. Mesmo sem se verem, caminhavam juntos.

Foi por isso que, naquela noite, a menina tentou encontrar uma maneira de voltar para o mundo onírico. Fechou os olhos. Respirou fundo. Imaginou o lugar que tinha acabado de abandonar. Se a realidade consegue sempre achar o caminho de volta, porque o mesmo não poderia acontecer naquele momento?

Eles estavam lá e estavam bem. Os 830 dias e aquela que simbolizava a mesma quantia + 365 noite mal dormidas. A saudade não passava de uma coisa desses livros cheios de palavras bonitas que a garota gosta de ler. Só isso, uma ideia bela e distante. Intocável.
A vida continuava do mesmo jeitinho. A ignorância a abençoava com o não saber que o mundo é volátil demais. Era um dia normal.

A moça pode ver mais uma vez os sorrisos que tanto faziam falta, sentiu o abraço apertado, ouviu a risada contagiante, recordou apelidos antigos e se sentiu em casa, plena e feliz. O coração se acalmou com o reconhecimento das partes roubadas de maneira tão brusca.

Com o abrir dos olhos veio a percepção de que tudo não passou de um sonho bom e mais do que merecido. Sobrou vontade, mas faltaram palavras para traduzir tal acontecimento.

Quase uma semana depois, ela acordou mais uma vez com o sorriso grampeado no rosto. Reencontrou apenas um deles. Por apenas algumas horas, que estavam longe de ser suficientes, ela o abraçou. A primeira coisa que pensou ao abrir os olhos foi que isso merecia um texto, daqueles caprichados. Pois ja tinha aceitado que sonhos são as novas memórias que o futuro não pode oferecer. Mais uma vez nada aconteceu. As lembranças se perderam antes mesmo de ganharem forma.

Um velho sábio disse uma vez que "Não vale a pena mergulhar nos sonhos e esquecer de viver", mas ela continuava sentindo vontade.