E como você se sente sobre isso?

sábado, 28 de abril de 2012 15:37 Postado por Arielle Gonzalez 0 comentários
Vamos combinar o seguinte: coisas tristes são belas, ok?

E já que toquei no assunto, nada de ter pena de quem não disfarça a tristeza. Para não perder a viagem, vou te dar outro conselho: para de se proteger da vida. Morrer é um efeito colateral da vida. Se machucar é um efeito colateral da vida. Ter histórias para contar é um efeito colateral da vida. Evitar qualquer uma dessas coisas é apenas o efeito colateral de não viver.


Não adianta não andar de moto e ser atropelado na calçada. Não vale a pena mudar de planos, caminhos e sonhos para evitar assaltos quando o crime não tem limites e frequenta todos os lugares. De nada vale se esconder numa redoma blindada quando a pedra é sempre mais forte e cai do azul, o fim pode chegar enquanto o sono oferece a ilusão de calma.

A maioria das pessoas acredita que envelhecer significa saber no que acreditar. Mas os anos passam cada vez mais rápidos e os dias, de tão cheios, acabam antes mesmo de começar. A nostalgia tempera o passado de maneira que até os piores momentos parecem saborosos. Não sobra tempo para desenvolver um repertório. Sendo assim, a linha de chegada é alcançada como se não tivesse saído do lugar. Não são novas dúvidas que aterrorizam o novo adulto, são as mesmas que foram negligenciadas e se fortificaram no abandono. A vida se encarrega de somente acentuar aquilo que a gente é.


É irônico perceber que sentir falta não tem nada a ver com o passado. As pessoas pensam que sentem saudade daquilo que tiveram, mas a verdade é que sentem falta daquilo que não poderão ter. 


Enfim, você gosta tanto de me presentear com a sua opinião, achei que finalmente fosse a minha vez de fazer o mesmo.
 


"Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim"

Remar para onde?

A moça não esperava nada daquele domingo. Seria mais um feriado normal, comemorado pelo motivo errado e de forma equivocada. A família se reuniria e colocaria a vida em dia, como se poucas horas de convivência fossem capazes de substituir aquilo que se perde com meses de ausência.

Nada demais. Ela estava acostumada. Amortecida. Esses encontros eram sempre iguais e, por isso mesmo, proporcionavam o consolo que apenas as coisas conhecidas podem oferecer. Era como voltar pra casa depois de um longo período de isolação. Somente esses momentos tinham o poder de causar duas sensações extremamente distintas e interligadas: a realização de que tudo mudou porque eles não voltarão e a percepção de que nada mudou pois eles ainda se fazem presentes nesse futuro do qual não fazem mais parte. De alguma maneira, eles sempre dão um jeito de voltar e ficar tempo suficiênte para apenas aumentar o vazio que deixaram para trás.

No retorno para casa, ocorreu uma revelação que nada tinha a ver com as reflexões anteriores. Mais uma vez, a garota teve certeza de que havia decifrado os sentimentos por aquele menino que há tempos assombrava o peito dela. A ideia estava longe de ser inédita, não passava de uma reciclagem. A verdade é que o pensamento não foi uma descoberta, foi a compreensão de algo que leu no passado. A moça, finalmente, entendeu que para amá-lo mais era indispensável amá-lo menos, bem menos ou quase nada. Para isso, decidiu fazer sempre o oposto do que faria normalmente.

Quando chegou em casa, correu para achar o texto da moça igualmente desafortunada nos assuntos do coração com intenção de escrever algo inspirado. Mas no meio de tantos trechos e frases soltas, acabou se perdendo e se achou nisso aqui: Eu gostaria de saber se você pode me ver, ou me ouvir e, quando você pudesse me ver ou me ouvir, pois eu não tenho certeza se quero que você veja tudo. Mas acho que, se eu pudesse escolher, eu escolheria tudo em vez de nada, por mais constrangedor que fosse. Mas, obviamente, isso não cabe a mim. Se fosse por minha conta, você estaria aqui, de pé, ao meu lado, e nós estaríamos visitando os túmulos de outras pessoas, alguém que gostássemos, mas de quem não sentiríamos tanta falta assim. 

De repente, nenhuma revelação sobre um rapaz distraído pareceu importante. Pois a garota sentiu uma vontade absurda e incontrolável de ouvir aquela voz conhecida que há algum tempo a vida a privou de ouvir. Ela revirou as memórias digitais e encontrou um pedacinho dele, algo tão pequeno diante da falta que ele faz. A moça chorou e chorou e chorou um pouco mais. Então lavou o rosto e teve a segunda revelação do dia.


Não importa o quanto as coisas estejam bem, dando certo ou encaminhadas. Não faz diferença se ela cortou o cabelo e resolveu que era hora de seguir em frente. Nada muda o que aconteceu lá atrás. E o luto, esse bichinho traiçoeiro demais, tem o dom de sumir por uns tempos, dando a impressão de que a dor sossegou, só para aparecer sem convite e cobrar a tristeza que às vezes a menina esquece de sentir.