Dos textos

O nascimento de um texto se dá como qualquer outro processo de vir ao mundo. Ele vem a hora que bem entender. Sem a mínima preocupação com o fato de que talvez não seja o horário ou lugar apropriado. O novo texto ocupa a mente quando o "escritor" resolve, finalmente, deixar o cérebro se entregar de vez ao cansaço no travesseiro mais próximo, quando o "poeta" está a caminho do trabalho mais do que atrasado ou onde não existe papel, caneta e documento em branco em nenhuma tela por perto. 

Dado início ao procedimento, o mesmo é irreversível. Ou ele vem ao mundo do jeito que bem quer, tomando a forma que mais lhe convêm e fugindo do controle de quem o parir, ou vai embora pra sempre, sem deixar vestígios de qual era a sua premissa ou missão. Se engana quem pensa que alguém escreve um texto, é sempre o texto que se escreve. Explorando dessa forma o conteúdo mais puro, inacessível e volátil do veículo pelo qual escolhe se canalizar. É um ritual quase espiritual.

Sendo assim é possível concluir que quem escreve escolhe esta ação como terapia e/ou exorcismo de demônios, ao passo que também pode ser considerado escolhido. Tem quem prefira praticar exercícios, trocar saliva com desconhecidas na balada, ingerir álcool além da conta, se esconder nos textos dos outros e repetir que está tudo bem até de fato estar, mas apenas quem dá a luz às palavras pode compartilhar toda a beleza e dor e alegria única que cada demônio tem. Uma vez que aquilo que faz bem, e principalmente o que faz mal, não deve ser esquecido ou ignorado. 

Também é necessário ter em mente que todo conjunto de palavras nasce com o objetivo de dizer muitas coisas, mas sempre deixa muito por falar. Pois da mesma forma que o conteúdo de um texto tem vontade própria, sua interpretação cabe somente ao reflexo do conteúdo de quem o lê. E toda leitura é correta e cabível de mutação futura. Porque só se enxerga aquilo que se tem e só se tem aquilo que se consegue enxergar. 

Apenas as palavras têm o poder de misturar o real com o imaginário sem dar pistas de quem é quem e ao mesmo tempo deixar claro que nesse universo das letras os conceitos omitir, aumentar ou mentir não existem. Trata-se apenas de licença poética. A liberdade de se reinventar quantas vezes quiser, sendo cada oportunidade igualmente autentica e original. 

Enquanto a leitura alimenta a alma, a escrita faz o sangue circular.

o esforço pra lembrar

Eu sonhei com vocês. Não foi nada surreal ou fantasioso. Era apenas a nossa rotina em cores mais vivas do que as da memória. E quando acordei, esse mais do mesmo era demais para aguentar. Porque são das coisas comuns que eu sinto mais falta. 

Às vezes eu ainda me esqueço. Era de se esperar que em dois ou três anos eu não tivesse me acostumado com as mudanças, mas já as tivesse assimilado. Vocês morreram, o mundo continuou a girar, a maioria das pessoas nem reparou ou já superou e eu continuo me surpreendendo com as implicações que isso tem na minha vida. Porque quando eu acho que não dá piorar, eu descubro mais alguma coisa da qual vocês deveriam fazer parte mas não podem. É uma lista que não tem fim. E cada item acrescentado aumenta a saudade e nesse ritmo quando chegar aos 40, vai sobrar falta e faltar ainda mais do pouco que sobrou de mim.

Pois tem dias que a saudade se alimenta dos meus sentimentos bons, não deixando nada de reconfortante dentro de mim. Isso causa uma bola de neve de tristeza que arrasta até os pensamentos mais nobres junto. Não sobra nada em pé. Vou no show dos Los Hermanos? Foda-se, não tem ninguém pra ficar irritado com isso. Eu arrumei um emprego? Dane-se, não posso esfregar na cara de ninguém que os anos de investimentos valeram a pena. A faculdade acabou? Grande coisa, faltaram duas pessoas orgulhosas naquele auditório. 

E vai ser sempre assim. Sempre vai existir o peso da presença ausente dos dois. Vão faltar histórias novas, fotos, lembranças... Tenho consciência de que não tenho, nem nunca terei, a intenção de me livrar desses fantasmas. Porque é melhor ser assombrada do que abandonada de vez. Enquanto eles passarem pela minha mente quando eu quiser dividir sorrisos ou lágrimas, os dois estarão aqui. Cada vez mais distantes e intensos. 

Por isso esfrego sal nas feridas. Reclamo da dor com a plena noção de que só os vivos sentem isso. Provoco o desconforto quando as coisas parecem voltar aos seus respectivos lugares. Deixo que filmes e músicas e situações que se repetem me levem de volta pra vocês. Esse é o tipo de dor que vale a pena pois devolve, ainda que pouco, a vida aos dois. Não me importo que ela tenha que sair de mim. 

Resumindo

Eu li numa revista "científica" que o cérebro não passa de um trapaceiro iludido. Ele acha que se a gente recriar um situação que nos causou sensação de bem estar é garantido que esse sentimento positivo aconteça mais uma vez também. Talvez isso seja a prova de que nascemos para sermos otimistas e algo dá errado no meio do caminho. Pois a nossa mente ignora as variáveis que contribuem, ou não, para sonhos e planos darem certo.

Acredito que seja dessa mania de repetir experiências que nasçam os nossos hábitos e hobbies. Esses detalhes que fazem parte de quem somos e de alguma forma nos definem. Eu sou mais do que os meus textos, livros, esmaltes e séries, mas as pessoas sempre falam de mim como a menina que escreve, lê em excesso, é obcecada por esmaltar as unhas e tem o hábito de assistir a vida que passa. Não me ofendo com nenhuma dessas descrições, de fato elas resumem partes daquilo que sou.

O problema de todo resumo é que ele deixa de fora muito da história original. E a gente nunca quer entregar demais o enredo, mas ao mesmo tempo não tem ideia de qual trecho é mais importante e indispensável para dar sentido e sabor a narrativa. Toda resenha deixa de fora o mais importante, pois esse tipo de coisa é necessário se mostrar digno para saber. Não pode abandonar a leitura pela metade, tem que ir até o fim. Ninguém entrega de bandeja aquilo que se esconde com sorriso e estraga brincadeira. 

Por isso é preciso ficar para descobrir mais do que aquilo que se espalha pela superfície. Tem que ficar e se interessar e não ter medo e ignorar o orgulho... 

Ninguém disse que seria fácil.

Amor

Demora, mas um dia a gente aprende. Seja com lágrimas de dor ou alegria, uma hora algumas coisas passam a fazer sentido.

Uma porção de ações indispensáveis para sobreviver acontecem sem esforço, são feitas quase sem querer. É instinto, misturado com reflexo involuntário, escolhas, acaso, hábito e mais um punhado de variantes que fogem do nosso conhecimento.

A gente respira, come, dorme, toma banho, faz as necessidades, pratica sexo e ninguém precisa nos lembrar de fazer nada disso, pelo menos não com a maioria das pessoas. Na última quarta-feira (01.02) eu descobri que o amor também acontece assim. A vida anda uma bosta repleta de medos, suposições, inseguranças, rasteiras, mas nunca deixou de ter sorrisos, abraços, risadas, danças, mergulhos, conversas...

Há quem acredite que tudo isso não passe do equilibrio universal, até pode ser. Acredito que a resposta seja muito mais simples: a vida é feita de gente. Que escolhe ficar ou partir ou é levada ou inconstante. Não importa. São essas pessoas que fazem viver valer a pena mesmo quando a conta bancária diz o contrário e o coração pede descanço. É essa gente que faz o amor acontecer sem ninguém ver.

Eu sou carente e sinto falta do amor de quem não pode mais oferecer e imploro por atenção de quem não vale nada e reclamo por reclamar e a vida continua. Mas sabe aquele amor do melhor tipo, aquele que é de graça, não pede nada em troca e deseja apenas o melhor? Desse eu tenho muito! E sentir tanto amor concentrado no mesmo lugar é indescritível. Faz o próprio coração bater com mais vontade por reconhecimento. Ninguém precisa falar se declarar, basta apitar, gritar apoio sem usar palavras de verdade, bater palma e deixar claro pelo olhar que estamos juntos nessa caminhada.