os dias viram só recordação

Teoricamente o mp3 player dela tem 160GB para armazenar aquilo que ela bem entender, na prática é um pouco menos que 150GB. Mesmo assim, cabem até 40.000 músicas, 200 horas de vídeo ou 25.000 fotos. O aparelho carrega mais oito mil canções, sendo que ela sempre ouve as mesmas 250 de maneira aleatória. 

Ela o carrega para emergências, caso o coração resolva parar, e como distração, caso o mundo se torne insuportável. A aparência comum, afinal é apenas mais um equipamento eletrônico idêntico aos milhares que são produzidos pela famosa empresa que é conhecida por uma fruta muito utilizada nas tortas americanas, engana os desatentos. A necessidade fez dele algo especial e inusitado, uma máquina do tempo.

Por isso, a moça não se surpreendeu quando o acaso escolheu levá-la de volta aos 16 anos. A voz anasalada tão conhecida, que um dia chegou a ser relativamente próxima, cantava com um sotaque não correspondente ao local onde o músico nasceu. Assim como ela, ele é carioca apenas de coração. Dono de um abraço poderoso, esse cara simpático arrancou incontáveis sorrisos e risadas dela, mesmo quando os dois estavam cercados de meninas chorosas desesperadas por atenção.

A vida era mais simples, menos desgostosa, mais sossegada, menos vazia... E lembrar desses quatro rapazes a fez pensar em muito mais gente. Os amigos que chegaram pela sintonia de interesses e as críticas constantes e os sonhos acordados e as loucuras e as conversas sem fim e o tempo livre em excesso e a ilusão de que tudo duraria para sempre. Acabou, mas ouvir a imaturidade deles sempre a leva de volta para um passado remoto onde ela ainda era ingênua e, por isso mesmo, mais feliz.

Eles mudaram. Ela se transformou. Contudo, aquelas canções congelaram a história entrelaçada deles no tempo. 

Faz falta, mas não mais do que tudo que deixou de existir desde então.

"E eu sei, daqui pra frente
Vai ser tudo diferente
Mesmo assim não há motivos pra chorar"

Puxão de orelha

Hey, psiu. Senta aqui do meu ladinho que a gente precisa conversar.
Não, não é nada sério. Tira esse bico da cara. Desfaz essa sobrancelha junta. Tô cansada de te ver sofrer por coisa pouca, ainda mais quando sei que você é uma moça tão inteligente, evoluída, independente e divertida.


Já que tomei coragem para ter essa conversa contigo, vou abrir o coração e dizer logo o que me incomoda: não aguento mais essa tua monotemática. Desapega, coração. Para de assistir comédia romântica e acreditar que é a exceção da regra. Sabia que esse tipo de produção também é ficção? Igual àqueles extraterrestres que você tanto gosta, mas nem por isso acredita que existem na vida real. Já que toquei nesse assunto tão delicado, quando você vai parar de se auto-sabotar? Chega de amores impossíveis, caras inalcançáveis e dores de cabeças desnecessárias. 

Você reclama tanto da vida amorosa inexistente que esquece dessa tua negação maluca, agindo como se cada boa ação dele anulasse as três vezes que ele te deixou arrasada. Não é assim que o jogo funciona. Basta fazer as contas pra ver que ele tá devendo pro banco. Uma garota como você merece mais do que migalhas de atenção. Eu sei disso, você sabe disso e, se bobear, até aquele tapado que você tanto gosta tem certeza disso. Ou tu acredita que ele te enrola com aquilo que você deseja ouvir apenas quando você parece distante por pura coincidência?  

A senhorita gosta tanto de lamentar que não encontra a porra do amor em lugar em nenhum, mas vive rodeada dele. O que não falta é gente te estendendo a mão, dizendo que te ama e implorando pra você contar mais. Então porque você se apega àquele único infeliz egocêntrico que só quer saber de música alta, gente vulgar e vazia, amnésia pela manhã e a ilusão de que isso quer dizer que ele tem histórias pra contar? Você é de verdade, se banca sozinha e não ignora o seu coração. E tem amigos, vários deles e em todos os lugares. O melhor de tudo é que eles não fogem só porque a coisa ficou feia e a tua maquiagem tá borrada. Eles querem teu bem e entendem que pra isso às vezes é preciso exorcizar aquilo que te faz mal. 

Então para de inventar desculpas pra aquilo que nem ele se dá ao trabalho de justificar. Engole a raiva, aprende a conviver com a ausência e deixa de ser boba. Ele não disse que era pra vida toda? Vamos acompanhar. Não se esquece do que a Tati disse, "a gente entende que saudade, além de não se traduzir, também não se cobra. Que presença e importância não se impõe", assim como "amor não se pede, imagine só".

Eu sei que essa tua solidão te dói, mas também sei que é assim que você gosta das coisas, porque é justamente coisa tua. Demorou tanto tempo pra construir essa fortaleza de palavras, sotaques, situações e cores. Porque se arrepender da decisão agora? Quando o mundo te decepciona é nesse universo que você criou que mora o consolo porque a força sempre esteve em você. Deixa que digam, que pensem, que falem. Todos precisam abandonar a própria pele para vestir algo mais leve em algum momento do dia, você apenas faz isso com mais frequência. E cá entre nós, ninguém tem ideia da complexidade das caraminholas que te assombram.

Também preciso te dar os parabéns. Saiu do casulo, né? Agora veste roupas brilhantes, enquanto segura copos gelados e finge que não despreza o contato físico com estranhos. Quem diria.

Enfim, você chegou tão longe. Acredita que não, mas mudou tanto e superou tanta coisa. Continua assim. Não deixa nada te parar!