Surpresa boa

Eu apenas queria que você soubesse


Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira

Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho

Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também

E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
É se respeitar na sua força e fé
E se olhar bem fundo até o dedão do pé

Eu apenas queira que você soubesse
Que essa criança brinca nesta roda
E não teme o corte de novas feridas
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida


[Gonzaguinha]

Menino lindo

Eu chego em casa com o corpo cansado e a sensação de dever cumprido. Não, nenhum milagre aconteceu. Mas descobri que eu faço qualquer coisa por você, até o que o meu saldo bancário não deixa.

Quando você vê as lembrancinhas, logo me pergunta, "é pra mim?". Nope. Seus presente são bem maiores, mais brilhantes e barulhentos. Uma tentativa falha de provar pra mim que o natal ainda pode ser algo bom, por você e ninguém mais.

Então eu perco o sono porque as músicas acabaram e porque já faz alguns dias que não durmo direito se o celular não toca. Eu penso em você. Em tudo que você perdeu e no fato de que você não entende a dimensão das coisas e em como a ignorância é uma verdadeira benção. 

Dói ouvir você chamando o pai de Tio Renato, mas isso nem chega perto da dor de você conhecê-lo apenas por foto. Me incomoda o seu natal sem a mesa lotada, a árvore cheia, a Vódice. Eu perco o sono pensando em coisas que nem tão cedo passarão pela sua cabeça e me consolo justamente no fato de você ainda ter muitos e muitos dias pela frente dormindo em paz.

É estranho sentir o amor como algo tão maior que a gente. Às vezes eu me confundo, não sei mais dizer o que é saudade e qual é o nome do resto do que eu levo no peito. Daí basta olhar pra ti, isso é tudo que eu preciso para  me lembrar que os dias nunca são tão ruins quando existe você ao meu lado. Quando a nostalgia tenta me pegar pelas mãos, estou ocupada demais te levando nos braços para me deixar levar. 

Eu te amo tanto que me coloco de lado para te fazer acreditar. 

O sono que adia

Tudo bem. Eu te entendo. Esse desespero é normal. Ok. Você pode chorar durante 10 minutos e amaldiçoar os mortos e ficar de mal com Ele e se fazer de vítima. 

Passou? Não? 
Sem problemas. 

Respira fundo. Fecha os olhos. Tenta pensar em coisas felizes: livros novos, seriados, reencontros, longas conversas, ele. Talvez você precise de tempo para digerir as mudanças que estão por vir. Ou melhor, na verdade você precisa aceitar a ideia de que mais algumas mudanças serão necessárias e que isso não é obrigatoriamente ruim.

Pensa bem, mulher. Logo você que não suporta o drama alheio de quem prefere reclamar das injustiças do mundo ao invés de mexer o traseiro para colocar as coisas de volta no lugar, tem certeza que vai perder tempo chorando de medo de não dar conta de recado? 

Não acredito. Tantas possibilidades te sorrindo e você fazendo bico feito criança mimada. Quando foi que a vida te ofereceu o estrada de asfalto novo feito tapete ao invés daquelas de terra toda esburacada? Ainda consegue se lembrar? Acho que já faz algum tempo, não? Então porque a surpresa? 

Relaxa. Não se leva tão a sério. Dá um sorrisinho, seja ele sincero ou daqueles irônicos. Mostra para o roteirista da sua vida que você é mais forte do que ele supõe, mais destemida do que todos acreditam. Prova pra esse idiota que o medo é aquele colega chato que se considera um bom amigo, ele aparece nas horas mais inoportunas e nunca sabe quando ir embora. Só por isso ele ainda procura abrigo no teu peito.

Tá mais calminha? Você não sabe por onde começar? Não queria tanta responsabilidade? Odeia fazer escolhas pelos outros?

Moça, dorme. Deixa isso pra lá. Você tem um amanhã novinho em folha para decidir tudo isso. Até as caraminholas da sua cabeça precisam de uma boa noite de descanso. 

Que o seu eu do futuro seja mais sábio e decidido. 

Se tudo der errado? Vish, não será nem a primeira nem a última vez.
Com certeza a vida há de seguir.

So long.

Olha, eu não tenho mais idade para diluir minha personalidade com objetivo de ser aceita. Não posso esconder minhas vontades ou disfarçar meu vícios para que você me veja com bons olhos. 

Eu não era assim quando nos conhecemos, mas tampouco era você. Sabe como é, bem daquele jeito que é dito no filme, a vida aconteceu. O tempo te deixou mais careta enquanto eu decidi me deixar ser tirada pra dançar e beber e cantar e aproveitar.

Nós costumávamos ser parecidas, até que uma escolheu a pílula vermelha e a outra a azul. De repente eu desenvolvi o hábito de pensar sozinha e expressar esses tais pensamentos. Quanta ousadia da minha parte!

Em outros tempos eu perderia mais tempo tentando salvar algo que não merece o esforço de ser reparado. Não ache que estou apagando a nossa história. É só que apesar de sentir a sua falta, acredito que sentiria ainda mais saudade de mim.


Você me avisou que não sabia manter amigos. Como sempre, estava certa. 

Porque a gente é assim?

Quando eu descobri que gostar de livros e seriados não tornaria a minha vida amorosa mais fácil e era estranha demais para ser a mais desejada e que estar acima do peso não faria os caras caírem aos meus pés, decidi que seria engraçada. A gente gosta de quem nos faz rir. Talvez tenha sido aí que tudo começou, que dei início ao processo de me tornar do jeito que sou atualmente. 

Só que é difícil se achar esquisita e gorda e feia e disfarçar tudo isso apenas com piadas, então a gente se cerca de artifícios para mudar o foco de atenção. Foi assim que a ironia, o sarcasmo e o cinismo entraram na equação. Misture inseguranças e disfarces com sacadas rápidas e supostamente inteligentes que tcharam: você tem uma Arielle. 

Não adianta. Pode me chamar de gostosa, linda e mimimi (não que isso aconteça com frequência), nada disso muda a forma que eu me enxergo. Cada um vê no espelho apenas aquilo que deseja. Isso significa duas coisas, há quem seja desprovido de beleza e se enxergue como gêmea da Gisele Bündchen e existe também aqueles que não conseguem ver nada além um demônio no próprio reflexo. Talvez o difícil mesmo seja encontrar alguém que se considere um meio termo, nem tão perto do céu ou do inferno, ou se perceba com uma imagem próxima da realidade.

É por essas e outras que tenho dificuldade em acreditar em você, ainda que não duvide da sua sinceridade. Você me chama de linda quando estou com roupa de ficar em casa ou descabelada e toda suada ou sem maquiagem. Seus elogios me pegam de surpresa quando estou despida de qualquer camuflagem. De repente gosto de como eu me vejo pelos seus olhos - uma Arielle nova, toda sua. 

Isso também me dá medo, por mais que você me enxergue melhor do que qualquer outra pessoa, descobrindo detalhes sobre mim que eu mesma desconheço. Às vezes tenho a impressão de que sua percepção pode  ser distorcida e ligeiramente aumentada, que um dia você vai acordar e se decepcionar com a realidade. Nem tão inteligente, nem tão bonita. Muito longe de ser grande coisa...

E eu sei que não tem nada a ver com esse assunto, mas não entendo porque a gente insiste em dizer que gosta quando quer falar muito mais. Economizar palavras não mudam os nossos atos que nos entregam sem o mínimo de pudor. 

Só pode ser amor se a gente saudade quando fica apenas um dia sem se ver. Não pode ter outro nome aquilo que a gente sente se temos coragem de entregar o coração de bandeja e dizer "faz o que você quiser com ele". Deve ser isso mesmo se o futuro, apesar de incerto, começa a ser planejado a dois, nem que seja de brincadeira. 

E por mais que falar assim pareça mera formalidade, eu te amo.

(não é todo dia que encontramos alguém para ser amigo, família, amante e companheiro)

Até quando?

Pior do que acordar assustada no meio da noite, é despertar de um sonho horrível por causa de um choro sentido. Surpresa maior foi descobrir que a origem do som era ela mesma.

O dia da moça foi corrido, mas acabou bem. Nada que justificasse reviver aquela cena. Dessa vez, nenhum menino sobrevivente estava ao lado dela para oferecer consolo. Chorando garota acordou e foi assim que voltou a dormir, pensando nele.

Não era assim que a garota gostava de lembrar dele, sem vida.

Parabéns pra você

Oi.Como estão as coisas por aí?
Já faz algum tempo que não te escrevo. Não é como se eu não pensasse em você, é só que tenho a impressão de que ninguém entenderia.
Hoje eu falei a seu respeito na praia, de como você arruinou todas as chances de um casamento perfeito. Quando esse dia chegar, entrarei na igreja sozinha e chorando. Ouvindo a tua voz em tom de risada dizer que finalmente você se livrou de mim. Eu vou chorar pra cacete, de felicidade, é lógico, e por você não estar ali, em carne, osso e piadas de mal gosto, falando que existe idiota pra tudo nesse mundo, até pra ficar comigo. 
Pois é, são 46 anos! Olhando para as suas fotos, que estão ligeiramente desatualizadas, nem parece. Esse emaranhado castanho claro que você chamava de cabelo não tinha os fios brancos que a idade impõe, por outro lado, a sua barba, permanentemente por fazer, tava pra lá de esbranquiçada. Acho que a sua alma jovem entrava em conflito com o seu corpo de homem adulto, atrasando aos poucos o processo de envelhecimento. Tanto bom humor interferia na sua imagem, tornando impossível te ver como nada além de um garotão. É assim que sempre me lembrarei de ti.
Não sei como funciona esse negócio de além, mas se você pode ver a gente daí, deve estar preocupado com o rumo que as coisas tomaram. Te garanto que estamos todos tentando fazer o melhor, ligeiramente perdidos, cada um do seu jeito e assombrados pela falta que você faz. 
Falando em falta, o Lex está aprendendo aos poucos sobre você. Será impossível explicar para ele que o pai dele foi um cara de batalhou até o último segundo, alguém que nunca se deixou abater, sempre foi justo e dono de um senso de humor sem igual. Nem que eu divida uma vida inteira de memórias com ele chegarei próximo de mostrar o quanto o nosso pai foi um ser humano fora do comum. 
Eu só queria te dizer que não me esqueci daquele ano que não me lembrei do seu aniversário. Ironicamente, desde quando você se foi, nunca mais consegui deixar essa data passar em branco. Não tenho mais o que comemorar, é verdade, mas esse continua sendo o seu dia. 
Obrigada por tudo, ainda que pareça pouco agora. Você me ensinou a sonhar alto, sempre honrar promessas e lutar de volta quando a vida resolve botar a gente na lona. Foi contigo que descobri a necessidade de sorrir apesar das rasteiras, fazendo graça das reviravoltas que deixam a gente sem chão. Desde cedo aprendi que nem sempre a justiça é feita, mas que nem por isso devemos trair nossos princípios e valores. E mesmo você achando que de tanto você trabalhar, os filhos nasceram cansados, nunca me esquecerei que um futuro brilhante é a gente que constrói, com muito suor e sacrifício, e esse tipo de coisa só vale a pena quando temos a nossa família por perto.
Que você se reúna com os melhores, beba umas brejas, coma a vontade e dê muitas risadas (supondo que vocês fazem isso por aí, seja lá onde for).

Eu te amo. 
Parabéns,
da sua Chatielle

Meu lugar

Eu te digo que só escrevo sobre coisas tristes e você responde que vai me ajudar, desde que, em troca, eu lute contigo a batalha contra as suas inseguranças. Tudo bem, a gente faz essa troca: um ajuda o outro a carregar a própria bagagem. Desse jeito, por maior que seja a caminhada, os passos serão mais leves, a jornada mais divertida e tudo menos cansativo. 

Você descobre o meu blog e não entende porque não existe nele. O que eu não consigo te explicar é que escrevo sobre aquilo que não posso falar e, apesar de tudo, você não é segredo. Moram aqui as palavras que morreriam dentro de mim. E como eu li uma vez, escrever não mantem vivo, enterra. Eu preciso de você por perto, próximo da superfície.

Faz mais de um mês que não economizo frases ou sentimentos, é tudo seu. Não sobra nada para se alojar aqui. Quando eu vejo, já foi tudo dito. Aquilo que não conto para você é sobre você e de repente eu entendo o significado de "até quem me vê lendo jornal, na fila do pão, sabe que eu te encontrei". Dá vontade de esfregar na cara da sociedade que encontrei alguém que me faz bem... Que pela primeira vez em meses (?) estou feliz. O problema é que estou tão ocupada curtindo o momento que tenho preguiça de desperdiçar tempo com isso.

Já te contei que eu gosto de como você sorri, mas tem sempre os olhos tristes? Por acaso, já te disse que acho uma graça quando você tem tanto pra dizer que não consegue formular uma frase? É divertido ver você montar um quebra cabeça com palavras que deveriam fazer sentido, porém não se encaixam e, mesmo assim, a gente sempre se entender. Gosto quando você coça a barbar e refaz seu cachinhos. E não existia tortura pior do que andar ao teu lado e não poder segurar a tua mão. Adoro como a sua mão é grande e como você é um homem, mas nem por isso deixou de ser criança. Você é o cara que resgatou um sapo.

Minha vida inteira me escondi nas músicas repetidas que sempre ouço para não ter que me sentir só. Por isso, sempre pedi que o universo colocasse alguém no meu caminho que entendesse a importância dessas canções. Eu poderia ficar horas deitada na sua cama, ouvindo você tocar para mim. Ainda que você não acredite, eu gosto da sua voz e do jeito que você canta (me encantando cada vez mais) e como você ri quando faz alguma coisa errada.

E não espalha, mas tive que refazer o meu Top Five Melhores Abraços do Mundo. Não tenho palavras para descrever o quanto eu adoro quando você me aperta, beija a minha testa e faz com que eu me sinta pequena. Dentro dos teus braços eu sinto que posso relaxar, respirar fundo e parar de bancar a adulta, com a certeza meio incerta (é difícil abandonar velhos hábitos) de que achei alguém pra cuidar de mim.

Gosto de lutar Jiu-jitsu com você e de te fazer ronronar e quando você me arranha fazendo sonoplastia e como a gente se diverte com tudo que dá errado e que ao seu lado tenho a impressão de que nada pode nos parar. 

Eu gosto de você e, se você deixar, acredito que isso pode virar amor.
Também sei que você merece muito mais do que esse texto aqui, que estamos apenas no começo e um dia a gente chega lá.

Bilhete

Eu só queria te dizer que não me esqueci e lembrá-la que ainda dói demais. Desde o seu dia eu tento juntar algumas palavras para você, mas não consigo. Sobra cada vez mais falta.

Queria que você soubesse que o amor que eu tenho por você é todo seu. E quando as coisas dão muito certo ou totalmente erradas, a senhora ainda é uma das primeiras pessoas em que penso. 


Não tenho ideia do que vocês fazem por aí, mas se você tiver tempo de olhar aqui pra baixo em algum momento, espero que goste do que vê. 

Ah, valeu pelas visitas. Adoro acordar com mais saudade do que quando fui dormir, mas com o peito aliviado de ter te apertado mais uma vez. Suas visitas vêm sempre em boa hora.

Parabéns atrasado.
Obrigada por tudo.
Te amo.

Vocês por aqui?

Todos se reúnem em volta da televisão. O plano é deixar aquele pequeno objeto redondo levá-los de volta no tempo, para o ano de 1996. 

Os rostos são refletidos na tela, com mais sorrisos e olhos menos cansados. São 16 anos a menos e a impressão de que aquela era uma outra vida, de desconhecidos. 

Desde o começo eu sabia o que estava por vir, quem estava por vir. Era com inveja que todos prestavam atenção naquelas imagens. "Tadinhos, nem imaginam o que acontecerá".

A menina dançando sem preocupações. Os longos cabelos balançando enquanto ela pula de um lado para o outro. Do lado de cá, a mulher que ela se tornou tem vontade de trocar de lugar com ela.

Mulher? De repente todos começaram a me chamar assim. Mal sabem eles que eu tenho resposta para tudo apenas para distrair as pessoas. Já que quem não se aproxima não tem chance de descobrir que esse peito estufado ainda esconde a menina que dança. Da mesma forma que aqueles que nunca perderam alguém não têm ideia do que eu esta falando.

O luto é um companheiro para a vida toda. Ele se afasta e espera. Paciente, se faz presente quando a pessoa está muito bem ou precisando de somente uma desculpa para ficar mal. De qualquer forma, está sempre por perto. Aguardando o momento certo para voltar e assombrar e mostrar aquilo que não poderá ser refeito ou feito pela primeira vez. Explorando o fato de que alguns infinitos são maiores do que outros. 

Os abençoados que não entendem a importância de quem vive apenas na memoria, desconhecem o misto de reações que o corpo tem ao ouvir a voz daqueles que não podem mais serem ouvidos. 

Especialista na arte de engolir o choro, segurei as lágrimas como se a minha vida dependesse disso. Tentei viver o momento mais uma vez, ainda que não reconhecesse o cara magrelo, cabeludo e de bigode ou a senhora gordinha e de cabelos negros. Mas sem dúvidas eram eles.

É estranho pensar que eu comemorarei mais um aniversário e acumularei conquistas e derrotas e viverei amores e eles não. A história deles acabou, sem direito a to be continued.

E quando digo que estou cansada de brincar de ser gente grande, não quero ouvir que preciso ser forte pelos outros. Só queria a mentira sincera de que vai ficar tudo bem.

Nada vai mudar entre nós...

domingo, 24 de junho de 2012 21:48 Postado por Arielle Gonzalez 0 comentários
Tem coisa mais clichê do que dizer que "o coração quer o que o coração quer"? Eu sei, eu sei. Já usei isso em algum texto por aqui e não há defesa para isso. Mas o mundo anda de cabeça para baixo, o impossível acontece, as pessoas se revelam, o certo tá todo errado e o errado parece cada vez mais atraente. 

Confuso, não? Sinto como se cada parte tivesse vida própria. É o coração que fechou para eterno balanço e cortou relações com o cérebro. Outro que anda meio surtado, depois de tantas séries tá se achando o House. Desvendando as pessoas e enxergando apenas o pior. Estou cada vez mais cínica.  

Mas entre mortos e feridos, ando sem motivos pra reclamar. Não que isso me impeça de continuar apontando minha insatisfação com alguns aspectos da minha vida, já que esse é o tipo de coisa que faço por hábito e, ultimamente, com um sorrisinho nos lábios.

Acho que a prendi a rezar ou a pedir com fé ou a implorar por atenção de alguma força maior que anda com pena de mim. De um jeito meio torto, os desejos que lancei sem pretensão no universo estão acontecendo, ainda que em um tempo nada adequado.

Mudei de emprego, matei vontades, desapeguei das dúvidas. Ouso dizer que não tô com medo, mas logo volto atrás com essa história de ser destemida.

É reconfortante deixar de matar o tempo para viver e de repente perceber que a vida deixou de acontecer sem você. 

Que você e a sua solidão sejam felizes

Eu tentei, mas não consegui.
Só volto aqui quando parar de doer.

Fingi na hora rir

Toda manhã ela levanta contando o tempo para voltar a dormir. 

Toda manhã ela deixa a água do chuveiro levar embora os sonhos que se recusam a reconhecer o seu lugar, vê planos e desejos escorrerem ralo abaixo. Às vezes, nem dó tanto ver uma parte dela indo embora assim. 

Toda manhã ela se abastece com a quantidade suficiente de café para ter energia o dia todo, nem a mais nem a menos, apenas o necessário para aguentar o tempo acordado.

Antes costumava apontar para a fé e remar, agora se satisfaz em acionar o piloto automático e esperar pelo fim do dia.

A Fantástica Fábrica de Boas Memórias


Eu me lembro. Da terra vermelha, do pasto, dos cavalos, do céu estrelado, dos sorrisos sinceros, do sol se pondo, dos abraços apertados, do cansaço, de comer bem, da saudade, de me sentir em casa, de trabalhar o dia todo, da família, das festas, das provocações, da pipoca salgada, do grande rio, do jogo da vida, das corridas, das corujas... 

São quase 800km separando uma vida de lembranças. Foram tantas viagens, ainda que um número longe de suficiente para ser satisfatório, que acabaram todas iguais. A terra levantando enquanto as lágrimas caíam, pois é difícil seguir em frente quando se sabe que algo muito bom está ficando para trás. 

Pessoas morrem, celulares diminuem, novos seres humanos chegam ao mundo, uma mulher assume a presidência do país, mas na Fazenda Santa Martha as coisas continuam intocadas, simples e perfeitas. Não há mal no mundo que possa afetar aquele paraíso.

Eu continuo me lembrando...

Das aulas que perdi por causa das viagens; de arrancar risos das pessoas no carro quando disse que as nuvens eram de algodão; daquela vez que deitada no colo da minha mãe tentei enxergar formas num céu estrelado; teve também a jornada que começou no meu aniversário, o melhor de todos, e terminou no do meu irmão; o inverno mais frio da história da minha curta vida com direito a geada e tudo aconteceu lá; foi onde o meu pai me ensinou a dirigir, para em seguida minha avó mandar eu não olhar nos olhos do maior touro do mundo para ele não sentir o meu medo; teve também a primeira vez que eu tomei coca-cola com cerveja; e quando eu assisti novela tomando vinho quente e comendo pipoca; sem esquecer de quando apostaram corrida de cavalo comigo na garupa; foi naquele quintal que a gente mergulhou na lama; por causa de uma dessas viagens eu fiquei um tempão sem ver a minha avó...

Voltar para lá, depois de quase sete anos distante, foi a oportunidade perfeita para lembrar e reviver e sorrir sem medo. Pela primeira vez em anos, eu pude falar sem medo a respeito daqueles que eu apenas escrevo. Mais do que isso, tive a oportunidade de ver em outros rostos aquilo que sinto. De repente, todos enxergavam os lugares vazios na mesa.

Depois de tantos altos e baixos, a calmaria chegou. A terra era vermelha, o céu estrelado, os sorrisos sinceros, os abraços apertados e era tudo família. Finalmente o coração conseguiu descansar e estava cheio de amor.

Sonhos

Há mais de 830 dias a história desses dois não se cruzava. Parece muito tempo? Pois bem, caro leitor. Saiba que se você nunca sentiu na pele o tempo se arrastando sem a possibilidade de um reencontro, nunca conseguirá se aproximar do significado 830 dias sem alguém por perto, ainda que sempre presente, de maneira denifitiva. São mais de oito centenas de 24 horas de saudade acumulada que dão a impressão de terem durado mais do que 19 anos.

Não se engane, a distância física não os distanciou de fato. Ele abandonou a carcaça para morar no infinito tempo limitado dela. E a moça, por medo da alternativa, acreditava que ele a acompanhava como uma força invisível e constante. Mesmo sem se verem, caminhavam juntos.

Foi por isso que, naquela noite, a menina tentou encontrar uma maneira de voltar para o mundo onírico. Fechou os olhos. Respirou fundo. Imaginou o lugar que tinha acabado de abandonar. Se a realidade consegue sempre achar o caminho de volta, porque o mesmo não poderia acontecer naquele momento?

Eles estavam lá e estavam bem. Os 830 dias e aquela que simbolizava a mesma quantia + 365 noite mal dormidas. A saudade não passava de uma coisa desses livros cheios de palavras bonitas que a garota gosta de ler. Só isso, uma ideia bela e distante. Intocável.
A vida continuava do mesmo jeitinho. A ignorância a abençoava com o não saber que o mundo é volátil demais. Era um dia normal.

A moça pode ver mais uma vez os sorrisos que tanto faziam falta, sentiu o abraço apertado, ouviu a risada contagiante, recordou apelidos antigos e se sentiu em casa, plena e feliz. O coração se acalmou com o reconhecimento das partes roubadas de maneira tão brusca.

Com o abrir dos olhos veio a percepção de que tudo não passou de um sonho bom e mais do que merecido. Sobrou vontade, mas faltaram palavras para traduzir tal acontecimento.

Quase uma semana depois, ela acordou mais uma vez com o sorriso grampeado no rosto. Reencontrou apenas um deles. Por apenas algumas horas, que estavam longe de ser suficientes, ela o abraçou. A primeira coisa que pensou ao abrir os olhos foi que isso merecia um texto, daqueles caprichados. Pois ja tinha aceitado que sonhos são as novas memórias que o futuro não pode oferecer. Mais uma vez nada aconteceu. As lembranças se perderam antes mesmo de ganharem forma.

Um velho sábio disse uma vez que "Não vale a pena mergulhar nos sonhos e esquecer de viver", mas ela continuava sentindo vontade.

E como você se sente sobre isso?

sábado, 28 de abril de 2012 15:37 Postado por Arielle Gonzalez 0 comentários
Vamos combinar o seguinte: coisas tristes são belas, ok?

E já que toquei no assunto, nada de ter pena de quem não disfarça a tristeza. Para não perder a viagem, vou te dar outro conselho: para de se proteger da vida. Morrer é um efeito colateral da vida. Se machucar é um efeito colateral da vida. Ter histórias para contar é um efeito colateral da vida. Evitar qualquer uma dessas coisas é apenas o efeito colateral de não viver.


Não adianta não andar de moto e ser atropelado na calçada. Não vale a pena mudar de planos, caminhos e sonhos para evitar assaltos quando o crime não tem limites e frequenta todos os lugares. De nada vale se esconder numa redoma blindada quando a pedra é sempre mais forte e cai do azul, o fim pode chegar enquanto o sono oferece a ilusão de calma.

A maioria das pessoas acredita que envelhecer significa saber no que acreditar. Mas os anos passam cada vez mais rápidos e os dias, de tão cheios, acabam antes mesmo de começar. A nostalgia tempera o passado de maneira que até os piores momentos parecem saborosos. Não sobra tempo para desenvolver um repertório. Sendo assim, a linha de chegada é alcançada como se não tivesse saído do lugar. Não são novas dúvidas que aterrorizam o novo adulto, são as mesmas que foram negligenciadas e se fortificaram no abandono. A vida se encarrega de somente acentuar aquilo que a gente é.


É irônico perceber que sentir falta não tem nada a ver com o passado. As pessoas pensam que sentem saudade daquilo que tiveram, mas a verdade é que sentem falta daquilo que não poderão ter. 


Enfim, você gosta tanto de me presentear com a sua opinião, achei que finalmente fosse a minha vez de fazer o mesmo.
 


"Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim"

Remar para onde?

A moça não esperava nada daquele domingo. Seria mais um feriado normal, comemorado pelo motivo errado e de forma equivocada. A família se reuniria e colocaria a vida em dia, como se poucas horas de convivência fossem capazes de substituir aquilo que se perde com meses de ausência.

Nada demais. Ela estava acostumada. Amortecida. Esses encontros eram sempre iguais e, por isso mesmo, proporcionavam o consolo que apenas as coisas conhecidas podem oferecer. Era como voltar pra casa depois de um longo período de isolação. Somente esses momentos tinham o poder de causar duas sensações extremamente distintas e interligadas: a realização de que tudo mudou porque eles não voltarão e a percepção de que nada mudou pois eles ainda se fazem presentes nesse futuro do qual não fazem mais parte. De alguma maneira, eles sempre dão um jeito de voltar e ficar tempo suficiênte para apenas aumentar o vazio que deixaram para trás.

No retorno para casa, ocorreu uma revelação que nada tinha a ver com as reflexões anteriores. Mais uma vez, a garota teve certeza de que havia decifrado os sentimentos por aquele menino que há tempos assombrava o peito dela. A ideia estava longe de ser inédita, não passava de uma reciclagem. A verdade é que o pensamento não foi uma descoberta, foi a compreensão de algo que leu no passado. A moça, finalmente, entendeu que para amá-lo mais era indispensável amá-lo menos, bem menos ou quase nada. Para isso, decidiu fazer sempre o oposto do que faria normalmente.

Quando chegou em casa, correu para achar o texto da moça igualmente desafortunada nos assuntos do coração com intenção de escrever algo inspirado. Mas no meio de tantos trechos e frases soltas, acabou se perdendo e se achou nisso aqui: Eu gostaria de saber se você pode me ver, ou me ouvir e, quando você pudesse me ver ou me ouvir, pois eu não tenho certeza se quero que você veja tudo. Mas acho que, se eu pudesse escolher, eu escolheria tudo em vez de nada, por mais constrangedor que fosse. Mas, obviamente, isso não cabe a mim. Se fosse por minha conta, você estaria aqui, de pé, ao meu lado, e nós estaríamos visitando os túmulos de outras pessoas, alguém que gostássemos, mas de quem não sentiríamos tanta falta assim. 

De repente, nenhuma revelação sobre um rapaz distraído pareceu importante. Pois a garota sentiu uma vontade absurda e incontrolável de ouvir aquela voz conhecida que há algum tempo a vida a privou de ouvir. Ela revirou as memórias digitais e encontrou um pedacinho dele, algo tão pequeno diante da falta que ele faz. A moça chorou e chorou e chorou um pouco mais. Então lavou o rosto e teve a segunda revelação do dia.


Não importa o quanto as coisas estejam bem, dando certo ou encaminhadas. Não faz diferença se ela cortou o cabelo e resolveu que era hora de seguir em frente. Nada muda o que aconteceu lá atrás. E o luto, esse bichinho traiçoeiro demais, tem o dom de sumir por uns tempos, dando a impressão de que a dor sossegou, só para aparecer sem convite e cobrar a tristeza que às vezes a menina esquece de sentir.

Desabafo, o retorno

Quando alguém ganha um celular da companhia telefonica, sabe que em algum momento pagou ou vai pagar pelo aparelho. Quando uma pessoa aproveita um promoção leve três e pague dois, tem consciência de que o valor do produto está embutido no preço. Chega uma hora na vida que não tem jeito, é inegável a conclusão de que nada é de graça.

Essa teoria se aplica a tudo, principalmente a relacionamentos. Se alguém diz que ama de graça ou qualquer coisa do genero, tenham certeza de uma coisa: essa pessoa espera, no mínimo, reconhecimento. Talvez ela não queira declarações falsas que alimentam o ego apenas com ilusão, não precisa dizer "eu também te amo", porque cada coisa acontece no seu tempo. Mas não custa nada responder algo genérico que traduza o seguinte "eu não me sinto da mesma forma, mas sou grato por você se importar tanto comigo".

Pois convenhamos, é comodo demais saber que existe alguém no universo disposto a passar por todo tipo de bosta só para estar ao nosso lado. Porém, como tudo nessa vida, se doar o tempo todo, sem nenhum tipo de retorno, cansa. E chega o momento que apenas Cazuza pode explicar, "não adianta desperdiçar sofrimento por quem não merece. É como escrever poemas no papel higiênico. E limpar o cu com os sentimentos mais nobres".

É triste saber que muitas vezes escolhemos nossos amigos, mas não somos escolhidos por eles. Ou que a amizade existe, contudo, um dos dois gosta muito mais. Fazer a manutenção de qualquer tipo de relacionamento sozinho é exaustivo e quando o cansaço se instala no peito, não tem jeito, até a melhor das amizades parece não valer a pena o esforço.

Por isso, é sempre bom receber uma mensagem sincera, em horas mais do que oportunas, dizendo a verdade nua e crua: eu te amo. Sem nenhum tipo de segunda intenção ou significado oculto, está tudo ali, qualquer um pode ver. Depois de correr atrás, implorar por um pouquinho de atenção, afeto, abraço, é bom saber quem ainda existe quem acredita que a vida é mais do que um eterno jogo de Imagem & Ação.

A rotina nos cobra que sejamos pacientes e as pessoas esperam que meias palavras e meias ações sejam suficientes para satisfazer o coração cansado de bater. "Em geral, as pessoas a quem fingimos amar aprendem a se contentar, talvez porque, embora o amor que recebem não seja verdadeiro, a oferta, a intenção, é de verdade. O querer, o desejo de amar". Eu não consigo aceitar esse tipo de coisa, porque eu não minto ou brinco com os sentimentos alheios. Isso não é ser bonzinho, é ser cruel. É dar corda para a pessoa se enforcar, pois quando for de verdade, o mentiroso não pensará meia vez antes de ir atrás do sentimento verdadeiro. 

Massa de modelar

Desfaz esse bico, encurta a saia, aumenta o sorriso, dança mais assim, não fala tanto palavrão, deixa de ser tão honesta, esquece esse cara, não esquenta com isso, larga esse livro, desapega, arruma uma vida, para de assistir tantas séries, não corre atrás, deixa de sofrer tanto por tão pouco, segue em frente, olha para aquele homem...

São tantos conselhos não solicitados. Se eu mudar tudo que as pessoas acham inadequado, não sobrará nada de mim.

Quem gosta aceita, não pede pra mudar.

Dos textos

O nascimento de um texto se dá como qualquer outro processo de vir ao mundo. Ele vem a hora que bem entender. Sem a mínima preocupação com o fato de que talvez não seja o horário ou lugar apropriado. O novo texto ocupa a mente quando o "escritor" resolve, finalmente, deixar o cérebro se entregar de vez ao cansaço no travesseiro mais próximo, quando o "poeta" está a caminho do trabalho mais do que atrasado ou onde não existe papel, caneta e documento em branco em nenhuma tela por perto. 

Dado início ao procedimento, o mesmo é irreversível. Ou ele vem ao mundo do jeito que bem quer, tomando a forma que mais lhe convêm e fugindo do controle de quem o parir, ou vai embora pra sempre, sem deixar vestígios de qual era a sua premissa ou missão. Se engana quem pensa que alguém escreve um texto, é sempre o texto que se escreve. Explorando dessa forma o conteúdo mais puro, inacessível e volátil do veículo pelo qual escolhe se canalizar. É um ritual quase espiritual.

Sendo assim é possível concluir que quem escreve escolhe esta ação como terapia e/ou exorcismo de demônios, ao passo que também pode ser considerado escolhido. Tem quem prefira praticar exercícios, trocar saliva com desconhecidas na balada, ingerir álcool além da conta, se esconder nos textos dos outros e repetir que está tudo bem até de fato estar, mas apenas quem dá a luz às palavras pode compartilhar toda a beleza e dor e alegria única que cada demônio tem. Uma vez que aquilo que faz bem, e principalmente o que faz mal, não deve ser esquecido ou ignorado. 

Também é necessário ter em mente que todo conjunto de palavras nasce com o objetivo de dizer muitas coisas, mas sempre deixa muito por falar. Pois da mesma forma que o conteúdo de um texto tem vontade própria, sua interpretação cabe somente ao reflexo do conteúdo de quem o lê. E toda leitura é correta e cabível de mutação futura. Porque só se enxerga aquilo que se tem e só se tem aquilo que se consegue enxergar. 

Apenas as palavras têm o poder de misturar o real com o imaginário sem dar pistas de quem é quem e ao mesmo tempo deixar claro que nesse universo das letras os conceitos omitir, aumentar ou mentir não existem. Trata-se apenas de licença poética. A liberdade de se reinventar quantas vezes quiser, sendo cada oportunidade igualmente autentica e original. 

Enquanto a leitura alimenta a alma, a escrita faz o sangue circular.

o esforço pra lembrar

Eu sonhei com vocês. Não foi nada surreal ou fantasioso. Era apenas a nossa rotina em cores mais vivas do que as da memória. E quando acordei, esse mais do mesmo era demais para aguentar. Porque são das coisas comuns que eu sinto mais falta. 

Às vezes eu ainda me esqueço. Era de se esperar que em dois ou três anos eu não tivesse me acostumado com as mudanças, mas já as tivesse assimilado. Vocês morreram, o mundo continuou a girar, a maioria das pessoas nem reparou ou já superou e eu continuo me surpreendendo com as implicações que isso tem na minha vida. Porque quando eu acho que não dá piorar, eu descubro mais alguma coisa da qual vocês deveriam fazer parte mas não podem. É uma lista que não tem fim. E cada item acrescentado aumenta a saudade e nesse ritmo quando chegar aos 40, vai sobrar falta e faltar ainda mais do pouco que sobrou de mim.

Pois tem dias que a saudade se alimenta dos meus sentimentos bons, não deixando nada de reconfortante dentro de mim. Isso causa uma bola de neve de tristeza que arrasta até os pensamentos mais nobres junto. Não sobra nada em pé. Vou no show dos Los Hermanos? Foda-se, não tem ninguém pra ficar irritado com isso. Eu arrumei um emprego? Dane-se, não posso esfregar na cara de ninguém que os anos de investimentos valeram a pena. A faculdade acabou? Grande coisa, faltaram duas pessoas orgulhosas naquele auditório. 

E vai ser sempre assim. Sempre vai existir o peso da presença ausente dos dois. Vão faltar histórias novas, fotos, lembranças... Tenho consciência de que não tenho, nem nunca terei, a intenção de me livrar desses fantasmas. Porque é melhor ser assombrada do que abandonada de vez. Enquanto eles passarem pela minha mente quando eu quiser dividir sorrisos ou lágrimas, os dois estarão aqui. Cada vez mais distantes e intensos. 

Por isso esfrego sal nas feridas. Reclamo da dor com a plena noção de que só os vivos sentem isso. Provoco o desconforto quando as coisas parecem voltar aos seus respectivos lugares. Deixo que filmes e músicas e situações que se repetem me levem de volta pra vocês. Esse é o tipo de dor que vale a pena pois devolve, ainda que pouco, a vida aos dois. Não me importo que ela tenha que sair de mim. 

Resumindo

Eu li numa revista "científica" que o cérebro não passa de um trapaceiro iludido. Ele acha que se a gente recriar um situação que nos causou sensação de bem estar é garantido que esse sentimento positivo aconteça mais uma vez também. Talvez isso seja a prova de que nascemos para sermos otimistas e algo dá errado no meio do caminho. Pois a nossa mente ignora as variáveis que contribuem, ou não, para sonhos e planos darem certo.

Acredito que seja dessa mania de repetir experiências que nasçam os nossos hábitos e hobbies. Esses detalhes que fazem parte de quem somos e de alguma forma nos definem. Eu sou mais do que os meus textos, livros, esmaltes e séries, mas as pessoas sempre falam de mim como a menina que escreve, lê em excesso, é obcecada por esmaltar as unhas e tem o hábito de assistir a vida que passa. Não me ofendo com nenhuma dessas descrições, de fato elas resumem partes daquilo que sou.

O problema de todo resumo é que ele deixa de fora muito da história original. E a gente nunca quer entregar demais o enredo, mas ao mesmo tempo não tem ideia de qual trecho é mais importante e indispensável para dar sentido e sabor a narrativa. Toda resenha deixa de fora o mais importante, pois esse tipo de coisa é necessário se mostrar digno para saber. Não pode abandonar a leitura pela metade, tem que ir até o fim. Ninguém entrega de bandeja aquilo que se esconde com sorriso e estraga brincadeira. 

Por isso é preciso ficar para descobrir mais do que aquilo que se espalha pela superfície. Tem que ficar e se interessar e não ter medo e ignorar o orgulho... 

Ninguém disse que seria fácil.

Amor

Demora, mas um dia a gente aprende. Seja com lágrimas de dor ou alegria, uma hora algumas coisas passam a fazer sentido.

Uma porção de ações indispensáveis para sobreviver acontecem sem esforço, são feitas quase sem querer. É instinto, misturado com reflexo involuntário, escolhas, acaso, hábito e mais um punhado de variantes que fogem do nosso conhecimento.

A gente respira, come, dorme, toma banho, faz as necessidades, pratica sexo e ninguém precisa nos lembrar de fazer nada disso, pelo menos não com a maioria das pessoas. Na última quarta-feira (01.02) eu descobri que o amor também acontece assim. A vida anda uma bosta repleta de medos, suposições, inseguranças, rasteiras, mas nunca deixou de ter sorrisos, abraços, risadas, danças, mergulhos, conversas...

Há quem acredite que tudo isso não passe do equilibrio universal, até pode ser. Acredito que a resposta seja muito mais simples: a vida é feita de gente. Que escolhe ficar ou partir ou é levada ou inconstante. Não importa. São essas pessoas que fazem viver valer a pena mesmo quando a conta bancária diz o contrário e o coração pede descanço. É essa gente que faz o amor acontecer sem ninguém ver.

Eu sou carente e sinto falta do amor de quem não pode mais oferecer e imploro por atenção de quem não vale nada e reclamo por reclamar e a vida continua. Mas sabe aquele amor do melhor tipo, aquele que é de graça, não pede nada em troca e deseja apenas o melhor? Desse eu tenho muito! E sentir tanto amor concentrado no mesmo lugar é indescritível. Faz o próprio coração bater com mais vontade por reconhecimento. Ninguém precisa falar se declarar, basta apitar, gritar apoio sem usar palavras de verdade, bater palma e deixar claro pelo olhar que estamos juntos nessa caminhada.

os dias viram só recordação

Teoricamente o mp3 player dela tem 160GB para armazenar aquilo que ela bem entender, na prática é um pouco menos que 150GB. Mesmo assim, cabem até 40.000 músicas, 200 horas de vídeo ou 25.000 fotos. O aparelho carrega mais oito mil canções, sendo que ela sempre ouve as mesmas 250 de maneira aleatória. 

Ela o carrega para emergências, caso o coração resolva parar, e como distração, caso o mundo se torne insuportável. A aparência comum, afinal é apenas mais um equipamento eletrônico idêntico aos milhares que são produzidos pela famosa empresa que é conhecida por uma fruta muito utilizada nas tortas americanas, engana os desatentos. A necessidade fez dele algo especial e inusitado, uma máquina do tempo.

Por isso, a moça não se surpreendeu quando o acaso escolheu levá-la de volta aos 16 anos. A voz anasalada tão conhecida, que um dia chegou a ser relativamente próxima, cantava com um sotaque não correspondente ao local onde o músico nasceu. Assim como ela, ele é carioca apenas de coração. Dono de um abraço poderoso, esse cara simpático arrancou incontáveis sorrisos e risadas dela, mesmo quando os dois estavam cercados de meninas chorosas desesperadas por atenção.

A vida era mais simples, menos desgostosa, mais sossegada, menos vazia... E lembrar desses quatro rapazes a fez pensar em muito mais gente. Os amigos que chegaram pela sintonia de interesses e as críticas constantes e os sonhos acordados e as loucuras e as conversas sem fim e o tempo livre em excesso e a ilusão de que tudo duraria para sempre. Acabou, mas ouvir a imaturidade deles sempre a leva de volta para um passado remoto onde ela ainda era ingênua e, por isso mesmo, mais feliz.

Eles mudaram. Ela se transformou. Contudo, aquelas canções congelaram a história entrelaçada deles no tempo. 

Faz falta, mas não mais do que tudo que deixou de existir desde então.

"E eu sei, daqui pra frente
Vai ser tudo diferente
Mesmo assim não há motivos pra chorar"

Puxão de orelha

Hey, psiu. Senta aqui do meu ladinho que a gente precisa conversar.
Não, não é nada sério. Tira esse bico da cara. Desfaz essa sobrancelha junta. Tô cansada de te ver sofrer por coisa pouca, ainda mais quando sei que você é uma moça tão inteligente, evoluída, independente e divertida.


Já que tomei coragem para ter essa conversa contigo, vou abrir o coração e dizer logo o que me incomoda: não aguento mais essa tua monotemática. Desapega, coração. Para de assistir comédia romântica e acreditar que é a exceção da regra. Sabia que esse tipo de produção também é ficção? Igual àqueles extraterrestres que você tanto gosta, mas nem por isso acredita que existem na vida real. Já que toquei nesse assunto tão delicado, quando você vai parar de se auto-sabotar? Chega de amores impossíveis, caras inalcançáveis e dores de cabeças desnecessárias. 

Você reclama tanto da vida amorosa inexistente que esquece dessa tua negação maluca, agindo como se cada boa ação dele anulasse as três vezes que ele te deixou arrasada. Não é assim que o jogo funciona. Basta fazer as contas pra ver que ele tá devendo pro banco. Uma garota como você merece mais do que migalhas de atenção. Eu sei disso, você sabe disso e, se bobear, até aquele tapado que você tanto gosta tem certeza disso. Ou tu acredita que ele te enrola com aquilo que você deseja ouvir apenas quando você parece distante por pura coincidência?  

A senhorita gosta tanto de lamentar que não encontra a porra do amor em lugar em nenhum, mas vive rodeada dele. O que não falta é gente te estendendo a mão, dizendo que te ama e implorando pra você contar mais. Então porque você se apega àquele único infeliz egocêntrico que só quer saber de música alta, gente vulgar e vazia, amnésia pela manhã e a ilusão de que isso quer dizer que ele tem histórias pra contar? Você é de verdade, se banca sozinha e não ignora o seu coração. E tem amigos, vários deles e em todos os lugares. O melhor de tudo é que eles não fogem só porque a coisa ficou feia e a tua maquiagem tá borrada. Eles querem teu bem e entendem que pra isso às vezes é preciso exorcizar aquilo que te faz mal. 

Então para de inventar desculpas pra aquilo que nem ele se dá ao trabalho de justificar. Engole a raiva, aprende a conviver com a ausência e deixa de ser boba. Ele não disse que era pra vida toda? Vamos acompanhar. Não se esquece do que a Tati disse, "a gente entende que saudade, além de não se traduzir, também não se cobra. Que presença e importância não se impõe", assim como "amor não se pede, imagine só".

Eu sei que essa tua solidão te dói, mas também sei que é assim que você gosta das coisas, porque é justamente coisa tua. Demorou tanto tempo pra construir essa fortaleza de palavras, sotaques, situações e cores. Porque se arrepender da decisão agora? Quando o mundo te decepciona é nesse universo que você criou que mora o consolo porque a força sempre esteve em você. Deixa que digam, que pensem, que falem. Todos precisam abandonar a própria pele para vestir algo mais leve em algum momento do dia, você apenas faz isso com mais frequência. E cá entre nós, ninguém tem ideia da complexidade das caraminholas que te assombram.

Também preciso te dar os parabéns. Saiu do casulo, né? Agora veste roupas brilhantes, enquanto segura copos gelados e finge que não despreza o contato físico com estranhos. Quem diria.

Enfim, você chegou tão longe. Acredita que não, mas mudou tanto e superou tanta coisa. Continua assim. Não deixa nada te parar!