Eu não vou mudar não

É preciso saber se deixar levar. Aprender a não questionar porque, com quem, onde e como. Por mais atraente que suponhamos que as respostas possam ser. O jeito é calar essas perguntas, por vezes, tão desnecessárias e, por consequência, ignorar as possíveis respostas indesejadas e/ou incompreensíveis. 

Continuar. Ainda que algo pareça errado. Sorrir. Mesmo que falte vontade. Ignorar. Todos que cobram coisas que fogem do seu controle. Não se acomodar. Impedir que lhe roubem os motivos que ainda encontra para rir. Levantar a cabeça. Impossibilita que façam você se sentir mal por aquilo que é. 

Mais do que isso é preciso aceitar que nem toda verdade será escrita em palavras bonitas e que, às vezes, as palavras mais belas não serão capazes de traduzir as verdades que sentimos. Mas isso também não significa que sempre encontro as palavras certas ou as verdade que tanto procuro.

Não posso oferecer sorrisos quando não sinto vontade de sorrir ou falar sobre sentimentos que não existem para fazer os outros felizes. Posso oferecer a minha honestidade constante e meus sentimentos sinceros. E sei que nem sempre as duas coisas serão satisfatórias, mas nem por isso posso oferecer nada melhor.

2+1=0

Quando ela olhou para ele, se esqueceu do coração partido, do significado daquele dia, do caos e dos problemas. Ela se limitou a prestar atenção no sorriso, espontâneo e tímido, e no interesse pela vida dela. E ele tentou recuperar o tempo perdido colocando a conversa em dia. Nada mudou ou os dois, simplesmente, tentaram ignorar aquilo que havia mudado. Eles ainda são bons amigos, mesmo que ele escolha bem as palavras na hora de falar sobre o que acreditar ser um assunto complicado e ela seja a primeira a tocar no tal assunto, sempre num tom de provocação. O papo rendeu. Eles deram boas risadas. O tempo passou rápido. Ainda são ótimos amigos, mesmo que agora ele assista os filmes que antes eram motivo de piada e depois ela tenha que explicar o que estava acontecendo nesses filmes, ignorando o fato de que ela não estava por perto quando ele assistiu e que é improvável que os dois assistam qualquer filme juntos. Ambos sabem que sempre terão os seriados.

Querido do meu coração

Começar qualquer post com a frase "eu li em algum lugar que.." é sempre motivo de piada. Quem me conhece sabe que existem três definições bem básicas sobre mim: sou leitora compulsiva, esmaltolátra descontrolada e apreciadora de boa música. Logo, estou sempre lendo algo em algum lugar, com as unhas pintadas de cores bizarras e procurando novidades musicais.

Uma das minhas autoras favoritas escreveu que a vida é uma série de ifs - a vida seria diferente se você tivesse apenas jogado na loteria ontem a noite ou se você tivesse escolhido outra faculdade ...  Essa mesma autora disse que deveria existir um regulamento que limitasse o luto. Um livro de regras que disesse que não tem problema acordar chorando, mas somente durante um mês. Que depois de 42 dias você não vai se virar com o coração acelerado, certa de que ouviu ele chamar o seu nome. Que não existirá nenhuma punição se você sentir a necessidade de limpar as coisas dele, jogar fora as anotações ou abaixar o porta retrato com a foto dele numa festa de família - porque a ferida parece nova toda vez que você vê o rosto dele mais uma vez. E que não tem problema medir o tempo desde que ele se foi, da mesma forma que você contava os dias para o aniversário dele.

Um ano. Apesar da minha memória falha ainda me lembro bem de como foi o dia 18 de janeiro de 2010. Mais do que isso, eu me lembro dos dias anteriores, como se fossem flashs do passado típicos de uma série americana. No dia 14, choveu mais do que na época de Noé e ele foi me buscar no serviço. O que fez com que ele me levasse até a secretaria no dia seguinte, o dia da minha primeira coletiva de imprensa. A mula aqui foi de salto e teve que voltar descalça de moto. Assim que cheguei em casa, sentei na barriga dele e disse que estava cansada de brincar disso, para depois narrar como tinha sido o meu grande dia. No sábado, ele saiu para comprar caranguejo e a noite a gente comeu pizza, as usual. Já no domingo, ele saiu com a minha moto para fazer a caranguejada anual na casa da mãe dele. Quando cheguei lá, ele estava falando sobre a coletiva de imprensa, transbordando de orgulho, e reclamou que a viseira do meu capacete estava destruída. Para variar, ele me deu os maiores caranguejos.

Eu me lembro que a segunda-feira começou com sol, mas que a chuva chegou depois que ele morreu. Eu me lembro de carregar o quinto livro do Harry Potter para todos os lados, mesmo quando não ia ler. Naquele dia, eu vi os olhos dele ficando opacos e sem vida, enquanto ele lutava para permanecer com a gente, toda vez que eu tentava dormir. Acabei o livro nessa noite. 

Um ano. Tantos dias sentindo falta de tudo a respeito dele, da risada aos berros. Tentando guardar cada memória como se fosse a coisa mais importante da minha vida, porque é. Controlando as lágrimas que brotavam nos olhos pelos motivos mais bobos e que sempre me levavam de volta para ele, me lembrando que ele não está mais aqui. Foram várias noites acompanhadas pela falta de sono e o excesso de choro. E semanas assistindo a aceitação e a negação brigando pelo lugar de destaque no meu peito. 

Durante meses, eu sorri me sentindo culpada por estar feliz quando ele não estava por perto e chorei me sentindo mal porque deveria estar bem por ele estar num lugar, supostamente, melhor. Criei mil hipóteses sobre como as coisas seriam se aquele dia tivesse sido diferente, mesmo sabendo que não foram e nunca serão. Mesmo sabendo que desejar demais, muita vezes, não é suficiente para mudar nada.

Agora, só sei que estou atrasada para o trabalho e tudo que eu consigo pensar são duas coisas bem simples, uma que eu sempre soube e outra com a qual já começo a me acostumar: pai, eu te amo muito e sinto demais a sua falta.



E tantas águas rolaram ...

E ela aprendeu. Depois de tombos e rasteiras. Após as tentativas de remendar, de curar e de colar. 

Aos poucos compreendeu que errar uma vez é humano e que às vezes cometer o mesmo erro é inevitável. Não pela tolice, mas pela necessidade de sentir algo conhecido.

O que ela percebeu apenas agora, é que da mesma forma que acontecem momentos "ops, I did it again", o ato de se reerguer também pode ser repetido. Parece mais fácil se recuperar quando isso já foi realizado pelo menos uma vez. 

Por isso, dessa vez a decisão de "deixar para lá" veio sem questionamento. Era simplesmente assim que tinha que ser. E ela aceitou. 

Ela deixou ele ir, sem a antiga esperança de que um dia ele iria voltar.

Coisas que as pessoas deveriam saber sobre mim:

Sou incapaz de escolher entre ler um livro, ver um filme ou assistir um seriado. Que eu prefiro não escolher a música da minha vida, porque a minha vida tem trilha sonora, uma coletânea. Que eu prefiro um show de uma banda que eu goste a alguma balada (só curto uma balada se for com pessoas que valem a pena, caso contrário não suporto). Que eu prefiro a minha casa do que qualquer outro lugar. Que eu prefiro dias chuvosos, mesmo que tenha que andar de moto. Que eu prefiro inverno a verão. Que eu gosto de acordar com o despertador, só para ganhar mais 15 minutos apertando o botão "soneca". 

Vocês têm que saber também que eu prefiro chocolate preto a branco, mas na falta do primeiro aceito o segundo de bom grado. Que eu prefiro 
Ovomaltine a qualquer outra coisa com leite, mas que sem dúvida prefiro Toddy a Nescau. Que eu prefiro comer o doce antes do salgado. Que eu prefiro strogonoff de frango do que o de carne vermelha. Que eu prefiro cozinhar a lavar louça. Que eu prefiro coca cola gelada a qualquer refrigerante. Que eu prefiro torta de limão a brigadeirão, mas também adoro o último.

Eu também prefiro barzinho à festa. Que eu prefiro jogar video game a passear no shopping. Que eu prefiro rodinhas de violão a qualquer coisa. Que eu prefiro guitarra e bateria à baixo. Que eu prefiro morenos a loiros, mas nem por isso dispenso bom partido de cabelos claros. 

Que pode não parecer, mas eu prefiro sorrir a chorar. Que eu prefiro abraçar a tristeza do que fingir alegria. Que eu prefiro honestidade à simpatia. 
Que eu prefiro ouvir a falar, mesmo que tenha dificuldade em ficar calada. Que eu prefiro dar conselhos a ouvi-los. Que eu prefiro escrever sobre meus sentimentos a falar sobre eles. Que eu prefiro parágrafos grandes, mas me esforço para os fazer pequenos.


*adaptação do texto Eu Prefiro

You've got everything you need

Foram necessárias algumas semanas para eu aprender a viver com a distância e todo o significado dela. Depois de alguns meses, meu pensamento era raramente visitado pelo nome dele ou a saudade do jeito que ele levava a vida, e tentava me ensinar a fazer igual, de uma maneira simples e sem complicações.

No começo, lembrar causava um misto de nostalgia e raiva, do tipo, "ain queria tanto que ele estivesse por aqui... mas estou melhor sem ele. Odeio aquele sunovabitch que foi embora sem dizer tchau"

Mais do que tempo, foi preciso muito autocontrole para afastá-lo totalmente, de um jeito que nem os quilômetros conseguiram fazer. E para desfazer tudo isso, bastou apenas uma ligação. 

Tudo que ele teve que fazer para me fazer esquecer o que a aprendi a muito custo foi me ligar. E se identificar com o nome do homem dos meus sonhos, que não é o dele, para mostrar que ainda me conhece, perguntar se nos meus sonhos ele está com ou sem roupa para me deixar sem graça e mandar um beijo no pescoço na hora de se despedir para provar que nada mudou.

Melhor do que ouvir as brincadeiras ditas sem qualquer pudor, foi perceber as mensagens subentendidas. Tudo que os lábios são orgulhosos demais para expressar diretamente. 

Pois bem, eu também senti a sua falta.

So long 2010

sábado, 1 de janeiro de 2011 12:45 Postado por Arielle Gonzalez 1 comentários
Muitos esperam que eu "acabe" com o ano de 2010 enquanto dou boas vindas a 2011. Mas para provar que não sou uma pessoa tão previsível quanto pensam, venho aqui agradecer pelo lado bom das coisas. Para mim, 2010 foi um ano feito de pessoas, que chegaram e/ou partiram. Eu só tenho a agradecer pelos dois, pelos mesmos motivos e por motivos diferentes. Não escreverei um texto enorme dando pequenas dicas de quem são eles. Mas espero que eles saibam a importância que tiveram e têm para mim.

E que 2011 seja o que tiver que ser.
Sem expectativas.