Deixa que o tempo vai gravar a sua voz em mim

sábado, 30 de outubro de 2010 01:01 Postado por Arielle Gonzalez 0 comentários
Eu sou uma pessoa musical.

O que isso significa? Que eu não estou habituada com o silêncio e que já estou acostumada a ouvir minha vida cantada. Tenho sempre uma voz conhecida por perto. Marcada em mim.

O meu pai era uma pessoa musical. Ele vivia cantando. O que não era necessariamente  bom. Nem sempre ele acertava o ritmo, a letra, o tom. Era fácil saber quando ele chegava em casa, porque a voz dele sempre chegava primeiro, cantando as mais tocadas de uma rádio qualquer.

Ele tinha gosto musical variado. Sempre moderninho, ia do samba ao rock, do forró ao rap. Tudo junto e misturado. Só existiam duas regras no controle de qualidade dele. Tinha que ser em português. E não poderia ser a minha banda favorita, porque isso o obrigava a ser do contra e não gostar. Vai entender. Coisa de pai até disso eu sinto falta.

Quando eu era pequena, nós ficavámos deitados na sala, ouvindo Legião Urbana. Lembro de alguns filmes, todo mundo no mesmo colchão, dividindo o cobertor e o pote de pipoca. Mas as noites ouvindo música me marcaram mais.

Nunca contei isso para ninguém, mas quando era novinha eu achava que meu pai podia ficar no lugar do Renato Russo. A matemática era simples, o nome dele também era Renato e ele era espanhol! E na minha inocência, eu achava que ele cantava super bem.

Eu me lembro de uma viagem que começou no meu anirversário e terminou no do meu irmão. Da madrugada gelada, os sanduiches de presunto e queijo, as garrafas de coca-cola, a conversa fiada e a música. O melhor aniversário ever. Só não digo que tinha tudo que precisava ali porque faltava a minha avó.

Com 15 anos eu usei muito a camisa dele da Legião Urbana combinada com uma saia jeans e meu allstar cano-alto preto. Achava aquilo lindo. A camisa parecia um vestido em mim. Em algum momento ela deixou de ser preta e virou cinza.

Então vieram os shows. No começo ele ia junto, ficava na galera, voltava a ser adolescente. Depois virou o eterno motorista particular. Foi tão longe por mim. Fez parte da realização desses meus pequenos sonhos.

Eu ainda me lembro de muito mais. E às vezes tenho a impressão de que poderia ficar horas escrevendo/falando sobre o passado. Vivendo de passado... Ao mesmo tempo nada disso parece suficiente.

Meu pai não era perfeito. Ficava insuportável quando estava sem grana ou com muita fome. Não admitia que estava errado quando isso acontecia. Vivia atrasado. Me esqueceu várias vezes na escola. Mas ele era lindo, tinha uma risada contagiante e um coração maior do que o mundo. Ele ficava bobo quando estava orgulhoso. Mal se controlava de alegria quando meu irmãozinho nasceu.Era impossível não gostar dele.

Quando eu comecei a usar salto, desenvolvi o hábito de parar ao lado do meu pai e ficar comparando as nossas alturas. Tentando alcançá-lo. Ele falava que o dia que eu conseguisse ficar mais alta do que ele seria o dia que eu teria que sustentá-lo. Eu não sei o que eu gostaria mais, a oportunidade de parecer pequena perto dele ou de ter um futuro ao seu lado.

O Renato Russo cantava:
"Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesses me ver
És parte ainda do que me faz forte
Pra ser honesto
Só um pouquinho infeliz"


A parte em negrito eu carrego no meu corpo. Como um lembrete. Algo que fiz para ele e por mim. Para não esquecer que a ausência dele não é apenas o que me traz constante dor e que essa dor é novidade. Mas algo constante na existência dele, que sempre levarei comigo, é esse sentimento de fortaleza.

Por mais clichê que seja, muito pessoas consideram seus pais os seus heróis até uma fase da vida e um dias descobrem que eles não passam de seres humanos. Eu sempre disse que meu pai era fucking awesome para quem quisesse ouvi. Porque eu vi ele levando várias rasteiras. E eu vi ele se levantar todas às vezes. Sem perder a força, a fé e o sorriso. Porque ele era esse tipo de pessoa.


Foi esse o cara que me buscou durante um ano e meio lá na Ponta da Praia e mudou o caminho na volta, só para me mostrar um New Beatle amarelo numa loja. Era ele que me acordava nas viagens para o sítio só para eu ver o Impala 67 na loja de carros antigos e sempre dizia que só não me dava um daquele porque não viria com o motorista caçador de demônios que eu tanto queria. Foi ele que ficou uma tarde inteira na fila esperando pelos ingressos do Rockgol. Que virou a noite comigo num show do Charlie Brown Jr, mesmo sabendo que eu só estava ali pela Forfun. E da mesma forma que ele comprou a castanha de caju para mim e comeu tudo no caminho para casa, foi ele que comprou o fone de ouvido só porque tinha strass e ele achou que eu ia gostar.

É ele que faz uma falta absurda.


Feliz aniversário, pai.

Whatever makes you happy

domingo, 24 de outubro de 2010 20:46 Postado por Arielle Gonzalez 1 comentários
Continuo procurando o significado das coisas. Como se fosse simples assim. No fim das contas, se eu não acho, invento.

Continuo tentando manter a minha sanidade. Para isso me escondo em livros, músicas e vidrinhos de esmalte. Em tudo que ainda posso controlar.

Continuo fingindo que não me importo. Que as palavras não machucam. Que as indiretas não magoam. Dessa forma, anulo o meu direito de sentir dor.

Continuo buscando apoio em quem nem suspeita da dimensão dos meus problemas. Pessoas que aos poucos conquistam o seu espaço, nos pequenos gestos de interesse. "Não ir embora: Ato de amor e confiança"

Das conversas que sou deixada de fora

"Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim"


Eu tento achar graça do modo como as coisas acontecem. São conversas que tento não levar a sério. Funcionam como uma bola de neve. No começo, não passam de pequenas indiretas, sutilezas de duplo sentindo, até que atingem um tamanho absurdo para continuar sendo ignorada. Quando de fato acontece, a pergunta é jogada na cara. Sem dó nem piedade. Vai direto ao ponto. 

Nem sempre é bem executada. De tanto enrolarem, acabam fazendo um misto de questão com afirmação. Uma vez que a ideia é criada, é impossível voltar atrás. Logo, nada que eu possa dizer vai satisfazer como resposta. Já haviam decidido que existia apenas uma réplica correta. Sem chance de argumentação. 


Isso ainda me surpreende. Porque eu nunca tenho certeza das coisas. Por coisas, quero dizer aquilo que diz respeito apenas a mim. Sou uma contradição, não nego. Mas sempre tenho certeza do que eu gosto ou não gosto. Não que isso não possa mudar, aumentar, acabar.

Tenho dificuldade em dar nome as coisas. Porque, nesse caso, eles são tão desnecessários. Eu não me preocupo, pois sei a intensidade que sinto tudo. Eu me conheço. E sei também que às vezes é impossível traduzir isso em palavras. Ou seja, a unica coisa que tenho a oferecer é o que eu digo. É a minha palavra que é dessa forma que me sinto. Sem provas de que seja verdade.

O que me deixa chateada é quando alguém tenta me provar que só isso não é suficiente. Como se eles fossem capazes de fazer o que não posso. Não tento. Não quero. Classificar os sentimentos que eu não tenho ideia do que se tratam. Os mesmo sentimentos que eu nunca rotulei por eles mudarem tanto. 

Por isso, eu odeio saber que falam de mim pelas costas. Falam sobre certezas que eu não tenho, como se fossem verdades absolutas. Sem saber nem metade do que aconteceu.

Boy I hear you

Sempre fui adepta do "recordar é viver". Desde sempre essa expressão faz parte do meu vocabulário. Porque eu sempre tenho esses momentos. Eu insisto nos mesmos erros, evito os mesmo acertos, lamento as mesmas bostas coisas. É uma simples questão de honra. A girl's gotta do what a girl's gotta do ... ou the heart wants what the heart wants... whatever!

Só que hoje percebi que se minhas memórias fossem discos, eles estariam terrivelmente danificados, arranhados, destruídos. De tanto ouvir a mesma música, repetir os mesmo refrões, reproduzir o mesmo ritmo. Deveria existir um limite de vezes para apertar o botão repeat.


"Temos de ver todas as cicatrizes como algo belo. Combinado? Este vai ser o nosso segredo. Porque, acredite em mim, uma cicatriz não se forma num morto. Uma cicatriz significa: Eu sobrevivi."

Momentos roubados

domingo, 10 de outubro de 2010 21:32 Postado por Arielle Gonzalez 0 comentários
Eu queria ter mais fotografias. Esses pedaços de papel que congelam o tempo. Que têm o poder de eternizar o passado. O mais triste é que sentir falta já faz parte de mim e por isso nem estranho quando o objeto ausente é algo que nunca existiu. Sinto falta das fotos que nunca foram tiradas.

Eu queria mais recordações do cotidiano. Stolen moments. As coisas mais banais, quase insignificantes, gravadas ao meu alcance. Tudo aquilo que ganha novas proporções quando acaba. Não precisava ser bonita, o que importa é o registro. A garantia de que algumas memórias são verdadeiras, ainda que pareçam um sonho. Um porto seguro para matar a saudade.

Porque minha memória é falha e tenho medo de esquecer alguns rostos. E eu me conheço bem o suficiente para afirmar que se isso acontecesse, seria como perder mais uma vez uma parte de mim.

"I suddenly remember being very little and being embraced by my father. I would try to put my arms around my father's waist, hug him back. I could never reach the whole way around the equator of his body; he was that much larger than life. Then one day, I could do it. I held him, instead of him holding me, and all I wanted at that moment was to have it back the other way."

well, you landed on my mind

Os meus pensamentos agora gritam outro nome. E cada vez menos se enganam, quase não chamam o dele.
Eu ainda o procuro, ensaio conversas e penso em ligar. A diferença é que agora a frequencia é menor.
Aos poucos meus sentimentos mudam. Consigo fazer o que outrora acreditava ser impossível, a proeza de enterrar um pouquinho aquilo que sinto mas não tem nome. E que justamente por não ter nome, adotou o dele.
O nome ainda não mudou de vez, mas já ganha nova forma e bate em ritmo de novas canções.
Eu ainda tento desacelerar o processo. Conforme aprendi com o meu histórico, quanto mais rápido eu corro, mais rápido eu encontro o chão na hora do tombo.
Eu ainda sinto a falta dele.
Eu ainda finjo não me importar.