Sei não.

Preciso de distração. Algo que me arrebate, tire os pés do chão e faça a cabeça girar. Sentir frio na barriga, coração acelerado e boca seca. Mil idéias passando pela cabeça, mas todas se recusando a sair.

Quero fazer papel de tola. Ter sorriso estampado no rosto por nenhum motivo especial, pelo simples fato de estar ali. Voltar a acreditar em finais felizes, me sentir inteira, não ter que remendar o que sobrou.

Não quero mudar de assunto pra não chorar, ter que carregar a ausência e ter carimbado nos olhos um vulto de algo que não vejo mais. Queria matar a saudade que todo dia mata um pouquinho de mim.

Quero deixar pra lá essa imagem de sobrevivente, deixar de ser assombrada por quem se foi com vontade de ficar, deixar de ser a especialista em ficar pra trás.

Quero abrir mão de tudo, Da dor e do prazer. Levar uma vida mais leve, do tipo que a gente sente sem saber. Sem procurar significado e sentido em tudo.

Quero deixar de ser hipócrita, aceitar que o único caminho é seguir em frente e que a dor que ficou não é o seu único legado. Mas tenho medo, quando a saudade passar vai sobrar o que?

Só pelo prazer de dividir.

"Não sei mas sinto que é como sonhar
Que o esforço pra lembrar
É vontade de esquecer

E isso por que?"

Los Hermanos - O Vento

...

Queria conhecer o gênio que disse que amar dói. Amar nunca é só amar, sempre é um sentimento acompanhado de alguma coisa. Ilusão, decepção, medo. Como se o fracasso fosse causar um dano irreparável. Como se fosse necessária uma cirurgia para consertar os estragos deixados para trás.
As pessoas parecem considerar o amor algo muito sério, e restrito. Às vezes esquecem que amigos também amam, assim como familiares. Não é um privilégio das relações que envolvem o amor romântico. Talvez não seja o mesmo tipo de sentimento, uma vez que cada pessoa é única e o que sentimos por elas também é.
Não tem como comparar, medir ou cobrar. A gente oferece aquilo que pode, e aceita de bom grado o que o outro tem para oferecer. Sem questionar o motivo ou a duração.
Já percebeu como a palavra fica no ar? As pessoas dizem sem problemas o quanto amam as coisas “amo meu ipod, meu celular, meu carro”, mas quando chega a hora de falar pra melhor amiga que ajudou na hora mais difícil, soa estranho.
E quando a questão é aquele carinha especial que você nem tem idéia de como ele realmente é, mas que só de olhar acontece um verdadeiro vendaval na barriga? O que quer que seja esse sentimento acaba sendo chamado, injustamente, de amor.  É impressionante a capacidade que temos de desenvolver esse suposto gostar por um total desconhecido. E deixar que outra pessoa defina nosso valor.
Nem sei mais sobre o que estava falando.

desabafo.

Não me escondo de ninguém. Sou a menina que dança enquanto anda de moto, que canta nos corredores da faculdade e cita coisas de nerd. Tudo isso sem se dar ao trabalho de olhar para o lado e ver a reação das pessoas.
Talvez minhas atitudes não sejam a de uma dama, eu falo alto e com as mãos. Minhas roupas nem sempre combinam, uso casacos largos que não mostram minhas curvas. Meu poder de sedução não existe. Sou sarcástica, cínica e doida.
Falo o que penso, isso às vezes me torna meio ogra e às vezes me torna palhaça. Caso necessário peço desculpas, sem vergonha também, sou responsável pelo que cativo.
Elogios e criticas me afetam. Meu ego não foi adestrado, e sempre precisa de manutenção. Uma massagenzinha aqui, um carinho ali. E assim sigo. Mas tento, de todos os jeitos que posso, ser superior a esse tipo de coisa. Tipo: minha cabeça meu guia. Não espero aprovações para agir.
Viajo na maionese, tenho dificuldade de prestar atenção nas coisas durante muito tempo. Sei separar realidade de fantasia, mas enquanto minha imaginação fértil não afeta ninguém além de mim, continuo assim. Mesclando o real com o imaginário. Fazendo a minha sorte. E acreditando no que bem entender.
Já aviso que é perda de tempo tentar me mudar. Vou continuar vivendo no meu mundo, enxergando as coisas com meus olhos, decidindo o que é melhor pra mim. Ainda que não passe de uma casquinha. Algo doce, que me alegra, mas logo derrete. Não me incomodo com as coisas efêmeras.
Aceito que não agrado a todos, e na verdade nem desejo isso. Tudo que agrada a todos é um tanto suspeito para mim. Sei que tudo é na base do 50% de chance de dar certo e 50% de não dar. O que há de vir só o tempo dirá. Se a segunda opção acontecer, deixo pra lá. Sou mais agir sem esperar nada em troca.
Faço as coisas para me sentir bem, não para ganhar confete (aceito só se for de chocolate).

Minha vida

Sei que dezenove anos não é muita coisa, ainda mais se for levado em consideração que não consigo me lembrar de metade deles. E existem grandes possibilidades da metade que eu lembro ter sido contaminada pela minha imaginação fértil, e por isso ter sido levemente alterada. Não confio na minha memória para afirmar que as coisas foram realmente daquele jeito. Mas se me pedissem para contar a minha história, que nem é tão interessante assim, poderia dividi-la por categorias que se complementam e dão idéia de todo.

Categoria Um – Música: São as bandas que me considerava O elemento perdido em algum lugar do passado, os álbuns que eu ouvia sem parar e as canções que de alguma forma me sentia co-autora. As musicas não necessariamente são importantes pelo que dizem, mas pelo que me faziam sentir na época. Considero-as maquinas do tempo, porque quando as ouço acabo sendo levada de volta ao momento no qual significavam a vida para mim. Algumas marcaram por quem me lembram, e outras pelas pessoas que cantavam comigo. Exemplos: Meu Erro, Hey There Delilah, Dezesseis, The Last Time I Saw You, Santeria, Who Knew, Details in The Fabric, Anjo Mais Velho, O Mundo da Voltas, Constelação Karina, Podia ser Pior, Bang Bang, Blind, Por Enquanto, All Star, Roda Gigante e por ae vai.

Categoria Dois – Pessoas: As constantes e as inconstantes, as que me ensinaram fazendo rir e/ou chorar, as que ficaram e as que escolheram partir. Todas que tive por perto e me mudaram. As que eu nunca vi o rosto, mas conheço melhor que a palma da minha mão. As que me ofereçam palavras, ombros, sorrisos e abraços. As que cantaram comigo e deixaram-me fazer parte da vida delas. Os meus amores impossíveis. As que me deixaram partir quando perceberam que já era hora. As que me mostraram o caminho e ofereçam a mão. Os ídolos/heróis que eu criei para me sentir melhor, mesmo sabendo que não passavam de seres humanos. As que conversaram sem pressa sobre acampamentos, festas, viagens, shows e outras pessoas. A minha família que me ensinou o certo e o errado, mas me permitiu cometer meus próprios erros para aprender de verdade, que vivenciou e aceitou minhas paranóias, obsessões e amores platônicos. A minha vó, que é capitulo especial na minha história, quem eu carrego comigo por onde eu for. Quem entendeu minha dor e tentou me mostrar o lado positivo, e quando não conseguiu chorou comigo para aliviar a maldita saudade. Todo mundo que de maneira direta ou indireta dividiu e dividirá o caminho comigo, fazendo companhia.

Categoria Três – Filmes, Livros e Seriados: Tudo que eu assisti sem parar, decorei trilha sonora e falas. Aquilo que assimilei como se tivesse vivido. O que me tirou da realidade e levou para um outro mundo, sem sair da minha cama. Os universos mágicos que acompanhei os episódios como se fossem dias da vida de um conhecido. Que me proporcionaram horas de divagações com as pessoas que dividem essas mesmas paixões.

Isso é um pouquinho da minha história.

do papel.

Se conversar tem o poder de aliviar, escrever tem o poder de aos poucos curar a alma. A quem diga que é mais fácil/prazeroso rascunhar sobre aquilo que a pessoa conhece, sendo assim nada melhor do que escrever sobre nós mesmos, não importa se é coisa profunda ou superficial, é só colocar no papel todo tipo de sentimento.

Não sei se é assim com todo mundo, mas meus pensamentos são recorrentes. Sempre vejo sobre varias perspectivas o mesmo fato, pessoa, momento, até enjoar. E sempre enjôo. Então chega a hora de escolher outro assunto pra ser repetido em minha mente feito disco arranhado.

Por isso acho meus textos um tanto repetitivos. Escrevo conforme aceito as idéias. Exploro-as até não sobrar mais nada. Exponho-me. Sem nenhuma mascara ou proteção. Tudo que está ali faz parte de mim, ou do que sou naquele instante.

Espírito aventureiro

Assisti “Up: Altas Aventuras” e digo sem nenhuma vergonha que chorei. É a história do rabugento Carl Fredricksen que após perder a mulher fica preso ao passado e todas as coisas ligadas a ela. Para não perder sua casa, imóvel que construiu com sua amada do jeito que ela sonhava, resolve realizar um sonho antigo de levar a casa até um paraíso perdido na América do Sul.

Pode soar estranho, mas me vi no Carl. Há pouco tempo perdi minha vó, e conforme a saudade se ajeita dentro de mim vou tentando botar pra fora aquilo que me sufoca. Geralmente em textos. Sei que não é fácil perder alguém que a gente ama. E no desespero agimos irracionalmente.

No filme, o vendedor de balões continua vivendo a mesma rotina, sem tirar nada do lugar. Fala com a esposa como se ainda estivesse ali. Age como se cada objeto que ela tocou ainda tivesse um pouquinho dela. Está estagnado em algum lugar do passado onde os dois viviam no mesmo plano e eram felizes.

Só sentir não basta. É necessário um bem material pra ativar a lembrança que às vezes falha. Como se só isso fosse garantia de que nada seria esquecido. Quando não se pode construir novas memórias nos empenhamos para tornar as antigas suficientes. A gente se esforça para tirar do fundo baú as mais empoeiradas, damos uma nova camada de tinta e ela fica nova em folha. Então guardamos, embrulhada em papel resistente, dentro do peito, porque esse não se esquece ninguém. O coração logo se encarrega de criar um espaço exclusivo pra pessoa, com lugar pra cada pedacinho de história, cada uma no seu pedestal. Onde ninguém alcança, a não ser a gente. No lugar que a gente sempre volta pra se sentir em casa. Onde não existe saudade ou dor.

Acho que esse filme mostra bem como os seres humanos se apegam ao passado. Carl está obcecado em levar a casa até as cataratas como se isso fosse trazer sua mulher de volta. Russel, um escoteiro super animado, quer ganhar mais uma medalha para ter um motivo para reencontrar o pai ausente. E o herói de infância do Carl já não sabe o que é bem e mal, só consegue pensar em capturar o pássaro e mostrar que estava certo. Onde termina a persistência e começa a obsessão?

Eu particularmente gostei de uma hora quando o personagem principal diz: é só uma casa. Uma frase tão simples, mas tão cheia de significado. A compreensão de que nada pode ser feito para mudar a morte. Objetos não são tão poderosos ao ponto de mudarem o que passou. O jeito é seguir em frente.

É um filme também sobre sonhos. Quando criança escolhemos algo bem improvável como meta. O tempo passa e a gente esquece o que queria. Mas isso não é ruim, porque um sonho morre para dar lugar a outro e assim vai. O que importa é ser feliz. Aceitar que a alegria reside em coisas imensas e/ou minúsculas. Deixar a vida se renovar. Ter mente e coração aberto, se sentir merecedor. Agradecer sempre.

Senti tanta coisa enquanto assistia ao filme e na hora de escrever saiu só isso. Droga. Que seja, o filme é nota 1000!

O que me marcou foi a percepção de que as vezes o passado se torna mais atraente por ter algo que muito amamos e não podemos mais ter, porém, ficar lamentando por algo que não vai voltar nos impede de ver as coisas novas que poderiamos amar, se estivissemos vivendo pra valer o presente.